sexta-feira, 9 de novembro de 2007

Francisco

O corpo arquejado sobre a janela aberta
para o quintal enquanto os olhos compõem
alguma consideração sobre as manchas impregnadas
[na parede.
As manchas estão também em sua alma e não partem,
entristecendo-o na contemplação das folhas pousadas
no chão de terra batida, envolvendo tudo ao redor
num amarelo tênue.

Francisco queda-se na cadeira próxima e sente
o gosto amargo na boca outra vez; tem dificuldade
de respirar dentro do sossego desta manhã.
E como se acorrentado à realidade que nega,
a realidade imponderável que furta-se a questões ou respotsas,
coloca seu descanso matinal a espreitar sombras
fragmentadas pelo sol que se levanta conivente
com as abstrações de Francisco.

Ele se posta sério e calado e vazio entre planos e ambições
sem substância que suas mãos calejadas tentam
modelar buscando formas e contornos acabados;
mas o equilíbrio se quebra com o chamado para o desjejum.
Francisco adentra a cozinha e encontra sua mulher
carregando a louça, indiferente à sua chegada;
sabe que o cansaço destruiu as expectativas que o tempo
não conseguiu sustentar de uma vida menos dolorosa.

O cheiro do café, porém, o desperta para a libido e tentação
e com a boca entreaberta e as mãos inquietas
aproxima-se dela, transmitindo o calor que esquecera
dentro de si, germinando no silêncio.
A mulher, no entanto, percebe o que se passa e volta-se
com seu olhar transparente, sem esboçar reação.
Francisco compreende que é inútil persistir
e sente-se um homem revoltado no seu próprio lar.

A miséria do amor recebido o derrota
e com algum esforço retorna à janela
para observar o céu demasiadamente grande.
Um pássaro solitário parece suspenso no ar
por fios invisíveis a olho nu.
Francisco é tomado por uma vertigem ao imaginar-se
em seu lugar, manipulado ou preso,
e põ-se a gritar, sentindo sua vida saltar o muro,
[ganhando liberdade.

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