quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Do Rio Que Segue

O leito seco do rio segue duro,
resignado pelo caminho de pedras.
O leito seco corteja as margens
num rito maduro e quase cego.
E as águas que foram outrora
deram aos peixes que assombram
com suas carcaças de terra
o solo morto desconstruído pelo sol.
Há momentos que uma brisa pesada
asfixia o leito anterior, inexistente,
soprando a umidade que de resto
tomba ao chão, na ruptura do tempo.

terça-feira, 30 de outubro de 2007

Poética/Ofício

O quotidiano do poeta foi quebrado
pela fissura da palavra que reteve,
exposta, a transgressão de sua liguagem.
A imagem permaneceu sem expressão
ininterruptamente por todo entardecer
quando o poeta, oblíquo, pôs a quietude
do universo em sua máquina abstrata
e das idéias gerou formas delgadas
que nomeavam a sua própria retidão.

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Letra Som E Numeral

Quando os sons onde estive
chegaram na acomodação das pedras
entrevi a malha aérea
das correntes de vento
e sorri feito criança na insônia
adivinhada pela esperteza.
Soube depois que não haveria
outro tempo para os jogos
que inventei em você.
Fiz mal em chegar tão tarde?
Ainda posso salvar seus olhos
atrasados para o amor.

domingo, 28 de outubro de 2007

Paralelos

Instalações precárias,
sob a ótica desajeitada
da patomima do amor.
O calor elevado do dia
eriça meus sentidos
para cada certeza
que vaga sem palavra
nos gestos ensaiados:
meus punhos cerrados
na galhardia famosa
do ciúme bobo que pede;
a provar o que não temos,
a negar o que queremos
e eu, relapso, não fiz.

sábado, 27 de outubro de 2007

Círculos Capitais

O dia nasce
mesmo quando há impurezas
na textura do azul.
Eu vejo a cidade lenta
dissecar seu conceito de sobreplanejada
em nuances de agressão contemporânea.
Movo olhares
entre as latitudes urbanas
intuindo a paisagem esfumaçada
que retém o trânsito
perturbado por um acidente.
Os mesmos carros tentam
a velha fuga
deixando escapar
as imperfeições em juízo:
rostos duros pelas horas perdidas
e que se valem do luar
em carne viva
reprisado como encenação
da pele doente de suas fantasias.

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Poética/Vertentes

Eu reviro a poesia-retalho
Sem compasso sem ritmo
Poesia à sangue-frio
Relatada pela associação
Palavra demarcada
Na manchete de jornal
E como aflora como implora
O jeito de expandir-se
Em sentidos e sensações
A manter o pulso
Calcado na batida do mundo:
Asfalto cocaína depressão
Guerra terror consumo
Pedra sapato avião
A poesia questiona
Sobre partes convexas
Medidas de contraponto
Restos jogados na rua
E devorados na humilhação
De seres humanos vazios
Que, refletindo-se, esvaziam-me,
Restando um opaco refluxo
Da minha condição de poeta.

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Se Eu No Seu Olhar, Afinal [Hélice]

Porque me desfaz de um jeito
que eu não posso opor -
sutileza na forma de prazer
[com os lábios pregados no meu]
diverte-se em espasmos coloridos
retardando a condição
de abrigo para a noite escura
que nos cerca, como agora.
É engraçado como o instantâneo
revelado me deixa tão exposto
às artimanhas tão próprias
de você, um vício perdido
para meu mal.
E eu me pergunto;
onde caí, onde fui parar?
Pensamentos revertidos de chumbo
não produzem, estranhamente,
o som metálico quando arrastados
pelo asfalto: são desfacelados
quando seus olhos os penetram
e os buscam, na vigília do amor...
Seria esse o nome de sua insensatez?
Incontrolável eu me torno
rondando signos para a corrupção
proposta em seu nome.
Amor, se isto há, se guarda nos dentes,
marcando a língua;
não na aspereza libidinosa,
mas na intimidade dos laços atados:
como suas mãos e anéis
anunciando um confronto
um conforto um estorvo
de não estar mais aqui
e ser apenas um rascunho na memória.
Há saída, de outra forma?

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Eu/Relativo Público

Estava fazendo uma pesquisa na internet sobre a adaptação cinematográfica de O Amor Nos Tempos Do Cólera quando deparei-me com um comentário bastante intimista acerca da obra original de Márquez. Tal o autor da referida matéria, também acredito em uma produção menor frente ao caso de amor que atravessa anos e que nos é contado de forma expressa, como a chamarmos para nossas próprias paixões à espera. Fiquei bastante impressionado quando devorei o livro, à época em que vivia de maneira mais intensa minha admiração pela produção de Gabo. Assim como um dia estive envolvido com Borges, o mestre. Borges, aliás, que me reapareceu em um poema de sua autoria traduzido por Millôr, e que me foi passado por um amigo. Aqui o reproduzo. Sublime.



LIMITES

De todas as ruas que escurecem ao pôr-do-sol,
deve haver uma (qual, eu não sei dizer)
em que já passei pela última vez
sem perceber, refém daquele Alguém

que, com antecedência, fixa leis onipotentes,
ajusta uma balança secreta e inflexível
para todas as sombras, formas e sonhos
tecidos na textura desta vida.

Se há um limite para todas as coisas e uma medida
e uma última vez, e nada mais, e esquecimento,
quem nos dirá a quem nesta casa
nós, sem saber, já dissemos adeus?

Pela janela que amanhece a noite se retira
e entre os livros empilhados que lançam
sombras irregulares na mesa baça,
deve haver um que eu jamais lerei.

Há uma porta que você fechou pra sempre
e algum espelho o esperará em vão;
para você as encruzilhadas parecem muito amplas,
mas há um Janus, vigiando você, nos quatro cantos.

Há uma entre todas tuas memórias
que agora está perdida além da evocação.
Você não será visto descendo àquela fonte,
seja à luz do sol claro, nem sob a lua amarela.

Você nunca recapturará o que o Persa
disse em seu idioma tecido com pássaros e rosas,
quando, ao pôr-do-sol, antes que a luz disperse,
você quer pôr em palavras tanto inesquecível.

E o Rhone fluindo sem parar, e o lago,
todo esse vasto ontem sobre o qual me curvo hoje?
Estará tudo tão perdido como Cartago,
queimada pelos romanos com fogo e sal.


Jorge Luis Borges

domingo, 14 de outubro de 2007

We’re Way Behind

Acordei com a lembrança falsa de favores amorosos prestados por uma velha amiga. Não me sentia, entretanto, enganado pela memória. Apenas perscrutava o fluxo de imagens confusas, como se a noite anterior tivesse passado imersa em álcool e brilhantismo. Moças sorrindo, desconhecidos olhando torto para mim, a nave secular da soberba humana pairando sobre nossas cabeças, num revanchismo retórico. A cidade fora dos pátios gradeados repartia-se em duas; aludindo à figura mítica da hidra. Em pouco tempo, sombras tomaram o lugar de tudo o que via, até restar, no dia seguinte, meu rosto cansado, frágil pelas certezas ausentes. Quem estava lá, afinal? Somente um rosto recorria aos esforços contra a amnésia temporal, um rosto familiar, inclusive aos apelos de afago passageiro. Mais uma história que não terminou na minha vida, deixada em aberto para um futuro talvez. Ela me resguardou do desgaste que a noite impôs aos que avançaram contra si mesmos? Era constrangedor perguntar. Mais: era intimidador. Como não podia sublinhar de minha demência etílica, fiquei divagando, ainda deitado. Uma larga hora se passou. A manhã ia alta, e eu entregue ao que pude ter feito, ao que não pude fazer, elementar na hipótese sensual.

sábado, 13 de outubro de 2007

We're Inside

O som da guitarra está muito alto. Eu olho para as cabeças pendentes como se entendessem a mensagem, e fico perdido por alguns segundos entre os outros. Calma. É só um show. A guitarra distorcida faz parte do clima. Não se perca. Beber, já naquela hora, não fazia mais sentido. Mas ainda assim eu continuei, transitando entre as pessoas, encontrando amigos, que conversavam gritando no meu ouvido. Eu ouço vozes, mas não sei de quem são. Quando a música chegou ao fim, a seguinte foi anunciada pelo vocalista com um grunhido no microfone. Às vezes eu penso se tudo o que me lembro não passa de uma alucinação. Se não estaria em outro lugar, outro plano, em outra mente? In Rainbows. Sim, eu sei. Não, ainda não. Hoje estava com vontade mesmo de ouvir In Limbo. Não percebem. O novo é o velho transvertido nos suaves tons da revolução tecnológica. Você vai acordar amanhã e não lembrar de mais nada. Até lá, vai ignorar minhas opiniões. Elas não são para divertir. Isso você já tem no palco, nos últimos acordes. Não quer ouvir sobre algo que não esteja aqui. As pessoas. Aqui, buscam uma postura mais rock ‘n’ roll. Surpresa: o rock não existe. Tudo o que vemos aqui não é real. Lógico, não é fácil perceber. Porque quando estamos entretidos demais com o movimento... O raciocínio não pára em ponto algum. Apenas se desloca pelo tempo, no vórtice da beleza sonora. Quantos se sentem transmutados no lirismo selvagem, pulsando o inconsciente inexplorado? Entre o sono e a insônia, o tédio e a loucura, a verdade e a ventura. Um caos que se desloca com a saída para a noite quente.

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Untitled - III

Os carros fora da rota
As pessoas fora de hora
Aves migratórias
no espaço tão longe
vão buscar o que faltou
nos corações dilacerados
pela aventura noturna.

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Do Lado De Cá - Parte 2

O segundo ensaio, de autoria de Hélio Schwartsman.


República dos bacharéis

Como estou sem assunto, hoje vou falar mal de advogados. Tenho o privilégio de dar-me com excelentes profissionais dessa bonita carreira, mas isso não me impede de acusar os arroubos corporativistas da categoria, que tanto mal causam ao país.
Um exemplo recente dá bem a idéia do que quero dizer. Numa rara iniciativa elogiável, o Senado Federal aprovou no final do ano passado dispositivo que simplificava as separações consensuais de casais sem filhos menores, dispensando-as de passar pelo crivo do Judiciário. Bastaria um registro público em cartório para consolidar a dissolução do matrimônio. (Podemos é claro nos perguntar por que diabos alguns ainda insistem em informar o Estado de que pretendem viver juntos, mas essa é uma outra questão). Era uma medida desburocratizante, simplificadora e que ainda contribuiria para aliviar a enorme carga de processos que atola a Justiça brasileira. Foi, portanto, rapidamente deturpada.
Por intermédio do deputado e advogado Maurício Rands (PT-PE), a república dos bacharéis conseguiu introduzir uma emenda que obrigou as partes a contratarem os serviços de um advogado. Com isso, a separação se tornou um pouco menos simples e mais cara. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva não teve a coragem de vetar essa excrescência, de modo que o projeto acabou sendo aprovado com a alteração ditada pelo lobby da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). No mínimo, a norma viola o princípio da razão suficiente: se não é necessário consultar um advogado para casar-se, tampouco deve ser obrigatório ouvir um na hora de dissolver a união por comum acordo. Mas é melhor eu parar antes que alguém tenha a idéia de fazer uma lei tornando necessária a presença de advogados em altares e dosséis.
Parece brincadeira, mas não é. Entre outras maldades que a OAB já tentou impingir ao cidadão está a necessidade de constituir advogado até para ir aos tribunais de pequenas causas e juizados especiais. O golpe constava do Estatuto do Advogado, a lei nº 8.906/94, bolada pela ordem e sancionada pelo Congresso Nacional. Só não se converteu em realidade porque, na Ação Direta de Inconstitucionalidade nº 1.127, movida pela Associação dos Magistrados do Brasil, o Supremo Tribunal Federal considerou nulo o dispositivo legal que tornava privativo de advogados "a postulação a qualquer órgão do Poder Judiciário e aos juizados especiais" (art. 1º, I). A expressão "qualquer" é que foi julgada inconstitucional. Ou seja, não foi uma vitória completa, pois continua havendo instâncias em que o cidadão não pode representar a si mesmo, sendo legalmente compelido a procurar um advogado. A dispensa do profissional só vale em juizados especiais, na Justiça do Trabalho e em ações de "habeas corpus".
Não me entendam mal. Acredito no velho ditado segundo o qual "a man who is his own lawyer has a fool for a client" (o homem que advoga por si próprio tem um tolo por cliente). Quero, entretanto, ter o direito de fazê-lo, ainda que não pretenda exercer tal prerrogativa. O que está em jogo aqui são os próprios pressupostos da República. É absurda a idéia de que eu possa escolher, pelo voto, as principais autoridades do Executivo e os membros do Parlamento, que escreverão e aplicarão as leis do país, mas seja considerado incapaz de representar apenas a mim mesmo diante de um juiz. Pior ainda é que isso ocorra por força de pressões escancaradamente corporativistas de uma associação profissional.
De resto, todo o pleito da OAB repousa sobre uma base logicamente frágil. O que a Constituição diz em seu artigo 133 é que o advogado é "indispensável à administração da justiça". Eu próprio concordo com a assertiva. Não sou capaz de vislumbrar um sistema judiciário no qual inexistam advogados. Mas isso de maneira alguma implica que eles devam ser onipresentes. A própria Carta é explícita ao afirmar que todos --o que inclui menores de 18 anos e estrangeiros--, têm o direito de peticionar "em defesa de direitos ou contra ilegalidade ou abuso de poder" (art. 5º, XXXIV). A doutrina corrente limita o escopo dessa injunção ao "habeas corpus". De minha parte, considero que qualquer ação judicial tem a ver a com a defesa de direitos.
Também se chega à mesma conclusão pela via do absurdo. Um cidadão pode, com base no Código do Consumidor, recusar um por um todos os advogados que lhe sejam apresentados. Ora, se esse putativo indivíduo for levado a julgamento e não puder representar-se, terá prejudicado seu amplo direito à defesa, hipótese que a Constituição não admite. A possibilidade de auto-representação mesmo em ações penais torna-se assim, "ex fortiori", uma necessidade lógica.
Diga-se em favor dos advogados que colocar os interesses da categoria à frente dos da população não é exclusividade sua. Na mesma senda caminham notários, médicos, engenheiros, jornalistas, políticos. O problema é que, no Brasil, qualquer grupo que tenha um mínimo de organização obtém sucesso senão em todos os pleitos ao menos em parte deles. O resultado é uma miríade de leis e regulamentos que, afora atender às demandas corporativas, só servem para frustrar direitos e dificultar a vida.
Uma demonstração eloqüente dos excessos burocráticos foi dada na semana passada pelo Banco Mundial, que divulgou a versão 2008 de seu já clássico relatório "Doing Business", no qual faz o ranking dos países que oferecem melhores condições para empresários. Pela quinta vez consecutiva, o Brasil faz péssima figura. Ficou em 122º lugar entre as 178 nações avaliadas. Por aqui, abrir um negócio cobra 152 dias perdidos com procedimentos legais e correspondente papelada. Na Austrália, bastam 2. A média dos países desenvolvidos (OCDE) é de 15 dias. Só não nos saímos pior do que Congo, Guiné-Bissau, Suriname e Haiti. E isso provavelmente porque o Haiti se encontra sob ocupação de tropas brasileiras.
Hoje eu centrei fogo nos advogados, mas críticas semelhantes podem ser feitas a praticamente todas as categorias profissionais. É claro que defender interesses de classe é legítimo. Os problemas começam é quando organizações como a OAB se tornam maiores do que sindicatos --que é o que deveriam ser-- e passam a acumular poderes desproporcionais, como o de indicar juízes, escrever leis, propor ações diretas de inconstitucionalidade, definir quem pode e quem não pode tornar-se advogado. É preciso depurar o Estado das pressões corporativas que o tomam de assalto, ou ele jamais poderá atuar de forma republicana.

Do Lado De Cá - Parte 1

Hoje eu postaria um texto de minha autoria. Mas li duas colunas belamente escritas na Folha de S. Paulo, tratando de assuntos relevantes para mim, que merecem destaque: um de ordem cultural e o outro de natureza pessoal. Muito já questionei e divergi sobre o papel das telenovelas, ainda mais diante de alternativas oportunas para um esclarecimento maior do intelecto e do senso crítico de cada um. A segunda coluna... Bem, fala por si. O curso maldito que acabei escolhando para mim, o Direito. A profissão encalhada nos abismos burocráticos mais insanos possíveis, mas que cobram pra si todas as prerrogativas ontológicas, debochadas em doutrinas rasas que vergam a profundidade dialética digna de um palhaço levado à sério.
Aqui vai o primeiro ensaio, escrito por Sérgio Malbergier.



A nova novela é velha

Escrevi aos 16 anos meu primeiro texto para a mídia impressa. Era uma carta endereçada à "Veja" reclamando de uma edição de agosto de 1981 que trazia Regina Duarte na capa. Xingava a revista porque, naquela semana, meu ídolo Glauber Rocha tinha morrido. Como a maior revista do país não percebia que a morte de Glauber era muito maior que qualquer personagem de Regina?
A carta não foi publicada, e penso que a revista faria a mesma opção de capa hoje, por motivos razoáveis.
A longevidade e a centralidade das telenovelas é impressionante. Desde o "Direito de Nascer", em 1964, elas dominam e moldam nossa indústria do entretenimento. O gênero não nasceu no Brasil. No começo, importávamos e adaptávamos textos mexicanos e argentinos, que eram redigidos não por autores contratados pelas emissoras, mas em agências de publicidade tuteladas por patrocinadores como Gessy Lever e Colgate-Palmolive.
Em poucos anos as telenovelas já lideravam a audiência no país, e nossos autores e homens de TV deram o pulo do gato: abrasileiraram os dramalhões latinos, introduzindo nossa peculiar realidade social.
A estrutura dos folhetins, porém, continua igual, com os mesmos enredos e tramas, fincados nos romances do distante século 19, envolvendo paternidades trocadas, cinderelas ascendentes, vigaristas cínicos, heroínas ingênuas.
Mas a esse rígido receituário foram sendo acrescentados o espírito da época, a história do ano, alguns dos grandes temas da agenda nacional. O esmero na arte telenovelesca, que tornou o Brasil o maior exportador mundial do produto, garantiu seu reinado absoluto na cultura popular do país. E já se passaram quatro longas décadas.
É um paradoxo. Autores como Janete Clair e Dias Gomes e atores como Lima Duarte e Tony Ramos consolidaram uma dramaturgia nacional, mesmo que pobre, e levaram a telenovela a registros de alta qualidade dentro do gênero, seu estado da arte. Mas sua dominação sobre nossa produção cultural, principalmente a audiovisual, nos empobrece.
A novela é antes de tudo um produto comercial, como, digamos, uma pasta de dente. Ela tem de dar lucro, muito lucro. É sua prioridade única, o resto é enfeite.
A TV Globo orbita em torno do drama das oito. Se a novela vai bem, a emissora vai bem. E, ao contrário das sitcoms semanais que dominam a audiência nos EUA, a telenovela é diária. Enquanto CBS, NBC e ABC têm cinco seriados por semana para cativar o público americano e, com ele, os anunciantes, a Globo só tem um tiro, a novela das oito. Ele tem de ser certeiro, e para isso vale tudo, com pressão enorme sobre seus autores e diretores, boa parte enfartada.
Não há como fazer a novela girar em torno de prioridades artísticas, apesar da enorme boa vontade de alguns críticos culturais. Ela sai a toque de caixa. Assim, na média, a luz vem chapada, o texto, sofrível, o desempenho dos atores, risível. Não pode ser diferente. As condições de produção impõem a mensagem.
Numa brava e histórica entrevista à Ilustrada, em março de 2006, Lima Duarte desabafou:
"É duro fazer novela. Está cada vez mais cansativo. Estão escrevendo a mesma história há 40 anos. Faço o mesmo personagem, e o público chora a mesma lágrima, no mesmo horário. Mas o povo não deixa mudar".
Quando pensei em escrever sobre a recente troca de bastão na novela das oito, de "Paraíso Tropical" para "Duas Caras", meu espírito era limaduartiano, de revolta contra os telenovelixos e sua intrínseca precariedade.
Mas alguma leitura e uma amiga, Heloisa Pait, Ph.D. pela New School de Nova York e professora da Unesp, me apontaram méritos inegáveis das telenovelas brasileiras, como a transmissão de alguma cultura aos menos educados e de um sentimento de coletivo aos telecidadãos com menos oportunidades de instrução e inserção. A eles a novela pode acrescentar.
Mas é constrangedor ver essa multidão de diplomados e bem instruídos, incluindo os que lêem este texto, mamar também nas tetas bregas de Gilberto Braga e cia, gastarem uma hora por dia, seis horas por semana, mais de 300 horas por ano com as peripécias de Bebel e Antenor.
A boa notícia é que a audiência da novela das oito declina, enquanto explode a penetração de computadores (e, com eles, da internet) nos lares brasileiros. Daí virá a revolução, que não será televisionada.
A telenovela não deve ser tudo isso no Brasil. O país precisa ser maior que elas, tirá-las do horário dito nobre. Desligue sua TV hoje na hora da novela e faça qualquer outra coisa.
Vai ser melhor para você.

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

The Genius Of C. Kaufman

- Só espere. Eu não sei. Quero que espere... Um pouco.
- OK.
- Mesmo?
- Não sou um conceito, sou só uma garota ferrada procurando por paz de espírito. Não sou perfeita.
- Não vejo nada que não goste em você.
- Mas verá.
- Agora eu não vejo.
- Você vai achar coisas. E eu vou ficar entediada e me sentir presa, pois é isso que acontece comigo.
- Tudo bem.
- Tudo bem? Tudo bem! Tudo bem...

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Confessionário De Manoel Gomes

Fui-me acolá
na montanha solfejar.
Por quê? Olha assim?
Tenho apreço pelos ratos-capitais
rolando na grama verdejante
do seu jardim.
Um dia próspero às façanhas
das quais nada sei
de cor:
só o desperdício de sol
vociferando, ardente,
pela paisagem que me conduz
ao esmo.
Porque afinal a fantasia
me doma as picardias
de verão tão preguiçoso:
à espera de brisa
e engenharia
que ponha os sonhos de pé.