domingo, 19 de agosto de 2007

Then Life Ain't Worth The Drown

Quando a noite adormece
nos objetos da casa
é possível sentir através das portas
os ossos duros do mundo,
movendo-se com lentidão.

Não reconhecem mais a si próprios,
e como as dobradiças enferrujadas,
rangem sua dor surda -
privados do sono que os guia.

(As portas trancadas não revelam
a memória que se abre
para as outras portas do mundo.)

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

A Thing Of Beauty Is A Joy For Ever

Pense em uma tarde nublada e como as pessoas reagem às nuvens no céu. Em como ficam em suas casas, sem nadar para fazer e sem lugar para onde ir, pensando em suas vidas. Uma hora e a televisão ligada, uma forma estranha de companhia, com os comerciais cada vez mais demorados. Uma hora e vemos coisas inúteis na nossa frente; vemos nosso silêncio na janela. Você vai e decide ligar para a pessoa que não encontra há meses, esquecendo como é seu rosto. A pessoa atende e fica surpresa, mas não sabe bem o que falar. Você lembra do tempo em que era jovem, e isso não significa mais nada para ela. O constrangimento é tanto que você acha melhor se despedir e desligar, antes que se sinta realmente embaraçado. Minutos depois está de volta ao seu sossego na frente da televisão, ela pelo menos disfarça sua simpatia com estranhos. A televisão arranca seu falso interesse justamente como você faria em uma mesa com amigos de infância que agora perguntam simplesmente o que você anda fazendo. O que você faz não interessa realmente a elas, assim como a televisão não se incomoda se você prepara o jantar enquanto ela fala para a sala vazia. Mas o som... O barulho é que se torna importante. Torna-se constante, na verdade, e isso é bom. Você dorme. Você acorda. Os rostos se revezam na sua frente, mas os sorrisos são sempre iguais. Sorrisos que prometem um dia glorioso, carregado de símbolos que lhe atravessarão por anos a fio. Mas, lógico, isso não acontece. Está fora de seus planos. O conforto é mais importante. Você decide ler um livro. Melhor, você decide escrever um livro. Um livro que todos irão ler. Um livro sobre dias inteiros vividos na frente da televisão. Um livro sobre suas vidas nubladas.

quinta-feira, 16 de agosto de 2007

The Lines That Never Fails - Parte 3

"“A marcha, escreve Piglia, supõe leveza, agilidade, rapidez. É preciso desprender-se por completo, estar leve e andar. Mas Guevara mantém um certo peso. Na Bolívia, já sem forças, carregava livros. Ao ser detido em Ñancahuazu, quando é capturado depois da odisséia que conhecemos, uma odisséia que supõe a necessidade de movimento incessante e de fuga ao cerco, a única coisa que ele conserva (porque perdeu tudo, não tem nem sapatos) é uma pasta de couro, que leva amarrada ao cinturão, sobre a ilharga direita, onde guarda seu diário de campanha e seus livros. Todos se desfazem daquilo que dificulta a marcha e a fuga, mas Guevara continua mantendo seus livros, que pesam e são o oposto da leveza exigida pela marcha.” (pág. 103) A capa do livro (da autoria de Angelo Venosa) foi inspirada numa fotografia de Ernesto Guevara lendo no alto de uma árvore. É uma imagem notável do guerrilheiro – homem de ação – que faz uma pausa para ler. Armas e letras, dois temas medievais explorados no Dom Quixote, parecem reviver nessa imagem em que o leitor, significativa e simbolicamente, situa-se no alto. Longe de ser uma posição de quem se sente elevado, a altura, aqui, é uma posição precária, que denota perigo e instabilidade. O inimigo pode estar por perto, pode surgir a qualquer hora e matar o guerrilheiro-leitor. Na fotografia é impossível reconhecer com nitidez a figura de Guevara, mas o observador sabe que lá no alto, sentado num galho, alguém olha para um livro. O fundo da fotografia é alaranjado, de uma tonalidade que evoca o fogo crepuscular: começo ou fim do dia. Ou luz que se esvai, anunciando a noite, o enigma do que vem por aí. Não sabemos se este livro é o último que Guevara leu. O último leitor é a metáfora de uma atitude diante da leitura: alguém que não pode viver sem livros. Narrar para não morrer é a mensagem de Sherazade ao rei Shariar (e ao leitor) em cada conto do Livro das mil e uma noites. Ernesto Guevara lê para viver. Ou suportar a vida: fado de um homem que vivia perigosamente à beira da morte. Mas ler é também o destino de tantos outros seres que não se lançam à aventura utópica de transformar o mundo por meio da ação revolucionária. Esse leitor apaixonado forma o duplo do escritor. E ambos justificam a literatura."
Artigo de autoria de Milton Hatoum e publicado originariamente na revista EntreLivros Ago/07.

The Lines That Never Fails - Parte 2

"Um bom leitor reescreve o livro com a imaginação de um escritor. Alguns vão mais longe. Com os olhos no texto e um lápis na mão, eles fazem anotações nas margens das páginas, sublinham frases, cravam aqui e ali pontos de interrogação. Há os que elaboram fichas com resumos ou esquemas do enredo, árvores genealógicas, comentários sobre o tempo da narrativa, posição do narrador, personagens, idéias, metáforas, ambiente político, social etc. Esse leitor incansável seria o leitor ideal, mencionado por Umberto Eco no ensaio Seis passeios pelo bosque da ficção.No Tempo redescoberto – último volume do Em busca do tempo perdido –, o narrador de Proust faz uma reflexão sobre esse tema. Um livro, diz o narrador proustiano, pode ser sábio demais, obscuro demais para um leitor ingênuo. A imagem que Proust evoca é a de uma lente embaçada entre o olhar e as palavras: um anteparo à leitura. Mas o inverso também acontece quando o leitor astucioso revela capacidade e talento para ler bem. De acordo com o autor francês, “cada leitor é, quando está lendo, o leitor de si próprio”. Ou seja, uma obra literária permite ao leitor discernir tudo aquilo que, sem a leitura dessa obra, ele não teria visto ou percebido em sua própria vida. No quarto capítulo de seu belo ensaio O último leitor, o argentino Ricardo Piglia lembra a figura de um leitor incomum: o revolucionário e guerrilheiro Ernesto Guevara. O comandante Che sonhava ser escritor, mas o compromisso político-social o conduziu a outras veredas. No entanto, ele escreveu diários de viagem, textos sobre técnicas e estratégias de guerrilha, relatos inspirados diretamente em sua experiência revolucionária em Cuba, na África e na América do Sul. O que não falta em suas incansáveis viagens – inclusive a última, pouco antes de morrer – é o livro, a leitura."

The Lines That Never Fails - Parte 1

"Há tanta diferença entre a “atitude" de quem lê e a de quem escreve? Um dos problemas cruciais do leitor e do escritor é a falta de tempo, decorrente da pressão do dia-a-dia. Os escritores que vivem de sua pena não podem escolher uma hora do dia ou da noite para trabalhar. Mesmo os que tiveram ou têm a sorte de não depender do trabalho da escrita, revelam-se compulsivos, ávidos para narrar. O que deve ser escrito é inadiável. Deixar para escrever mais tarde, amanhã ou outro dia qualquer só atrapalha o andamento da narrativa. Adiar um trabalho pode ser um alívio para um burocrata, não para um escritor. Ainda assim, há momentos de pausa e reflexão, de pesquisa e anotações, e, às vezes, de interrupções forçadas, um verdadeiro castigo para quem escreve. E há também pausas para leitura: a urgência de escrever não é menor nem menos intensa do que a urgência de ler. “Escrevo porque leio”, afirmam alguns escritores. Mas um leitor poderia dizer: não escrevo nada, mas é como se a leitura fosse um modo de escrever, de imaginar situações, diálogos e cenas que a memória registra no ato da leitura. O pior leitor é o passivo, resignado, que aceita tudo e lê o livro como uma receita ou bula para o bem viver. Este é o não-leitor. Porque o texto de auto-ajuda é um compêndio de trivialidades, palavras que não questionam, não intrigam nem fazem refletir sobre o mundo e sobre nós mesmos."

quarta-feira, 15 de agosto de 2007

Véspera

Esta cidade, submersa na rotina
de seus dias sem causa,
traz as memórias de minha infância
em sua carne.

Memórias miúdas, passadas em lugares
que já nem sei bem haverem
como eu os imagino nesta idade de hoje.
Se os passeios da mesma forma se foram,
esta verdade não me interessa mais.

O que eu ainda revisito,
como o rio insone e a praça da igreja,
levam meus olhos para outro tempo:
seguem estreito pela margem das gentes
até onde, o homem sendo feito,
torna à boca uma sensação
um pouco amarga.

terça-feira, 14 de agosto de 2007

Bem Vindo Ao Mundo, Porque É Assim Que Ele É

Fiz pouco caso quando me pediu para entrar. Sentei mesmo na calçada e contei estrelas até que o infinito se firmasse em minha imaginação como algo concreto. Precisava de algo real a que pudesse me agarrar antes da queda. E certezas nunca foram possíveis de você. Só o desamor que colocava na mesa, junto com o café da manhã. Isso quando não acordava tarde e vinha se queixando sobre o sono tardio. Não atrapalhava a TV, mas acabava com meu juízo. Não queria começar tudo mais uma vez. Nem os diálogos ensaiados, nem os livros repostos na estante, como se nada tivesse acontecido. Meu amor só se vive uma vez. A vida não aposta no mesmo sonho para sempre.

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Estampas De Rua

pára-choque pára a tempo:
não pára a vida, pára a via.
automóveis à velocidade da luz
não se movem na idéia que reduz
à própria velocidade a que faz jus.
tanto desapego no trânsito
transitório que transita na contra-mão.
ainda ouve-se o grito: não!
era noite ainda, quase dia
quando os gestos num exílio de contento
encaminharam-se para a partida,
levados pelo vento...

domingo, 12 de agosto de 2007

A Chuva Cai No Pára-Brisa Do Carro Quando Estamos Longe de Casa

Bang, bang. Foi assim, com um impacto duro e seco. Eu olhei pelo retrovisor e de repente a porta se abriu. Com a maquiagem borrada ela sempre foi mais interessante. Ficamos em silêncio alguns minutos, antes de sair pelas ruas escutando os ruídos da madrugada, vendo a Lua feita-de-papel estampada no céu, num abuso insolente. Enquanto isso ela examinava as unhas, nervosa demais para pensar. O que se passava em sua tumultuada alma? Passional do seu jeito, me pediu para estacionar em qualquer lugar, e caminharmos um pouco. O que eu peço é só um pouco do seu calor pra mim, ela sussurrou quando já estávamos mais próximos, confidentes provisórios de nossas fraquezas expostas. Engraçado como a bebida faz você caminhar com passos calculados, comentei meio sorrindo. Foi o bastante para ela chorar baixinho com os braços me apertando o corpo, com medo talvez de simplesmente desaparecer sem deixar rastro. Com medo de virar poeira cósmica, perdida entre as estrelas. Sem ninguém que a ouvisse, sem promessas para cumprir.

sábado, 11 de agosto de 2007

Coisas Acontecem [Sumire No Céu Com Diamantes]

"De modo que é assim que vivemos nossas vidas. Não importa quão profunda e fatal seja a perda, o quão importante fosse o que nos roubaram - que foi arrebatado de nossas mãos -, mesmo que mudemos completamente, com somente a camada externa da pele igual à de antes, continuamos a representar as nossas vidas dessa maneira, em silêncio. aproximando-nos cada vez mais do fim da dimensão do tempo que nos foi estipulado, dando-lhe adeus enquanto vai minguando. Repetindo, quase sempre habilmente, as proezas sem fim do dia-a-dia. Deixando para trás uma sensação de vazio imensurável."
Haruki Murakami

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

We've Seen The Damage Of Gossip And True Lies - Parte 2

A realidade está cheia de sinais. Como seria se corrêssemos um pouco de perigo de vez em quando? Expostos ao perigo, ao jogo. Se sangrássemos, quem viria para nos salvar? Ou ficaríamos contorcidos de dor em um canto escuro, até a noite surgir, em meio a alucinações de câncer lunar? Hipnotizados pela medo. Como seria se o abismo estivesse mais próximo. Como rejeitaríamos nossas condições para tentar ver o outro lado.

We've Seen The Damage Of Gossip And True Lies - Parte 1

Quem estaria pensando agora em você mais do que eu? Perdendo o sono... Mas não pela mesma causa: encontrei alguns desenhos animados que costumava assistir quando criança. No tempo em que ainda não existia para mim; era só um projeto no meu futuro. Não sabia que iria sentir saudade tão rápido. Acho que ninguém esteve tão perto de entender o que eu digo quanto você: um plano tão elegante como as roupas do Paul Banks.

quinta-feira, 9 de agosto de 2007

Como O Rio Moldau Na Primavera - Parte 2

Olhava para o céu opaco de agosto enquanto caminhava entre os carros. O mesmo percurso de antes, mas eu não me sentia igual. Olhava para os nomes estranhos que agora ocupavam as fachadas dos prédios velhos do centro e tentava encaixar o meu passado na retina, como se pudesse sobrepor a memória a tudo o que via. E assim a cidade foi perdendo o sentido, até se desfazer numa sombra formada de sua própria história. Os anos traçavam minha imaginação e mais longe eu fui, onde não existia objeto ou causa: o estigma dos desafortunados, arrastando-se pelas ruas. Não percebia o espaço que ocupava, anulado pela pressa com que desviavam-se de mim. Parecia que todas as vidas eram tão urgentes... Desesperadamente necessárias para esse universo compacto que tentei assimilar por algumas horas. Mas qual sentido havia nessa busca de um passado que se alterou quantas vezes eu o perscrutava? Não seria na velha loja de tecidos que permanecia inalterada, como uma relíquia dos tempos, entre duas praças, que encontraria minha verdade. Seria talvez longe daqui, em algum lugar onde eu ainda faça parte do processo. Algum lugar de lugar nenhum?

quarta-feira, 8 de agosto de 2007

Dylan For The Lovers

Quando assisti o filme Solaris (na versão protagonizada pelo Clooney), uma poesia, que era meio como um código secreto entre seu personagem e sua esposa, chamou minha atenção. Tratava-se de uma peça escrita por Dylan Thomas, entitulada "E A Morte Não Terá Controle". Foi a partir do filme que procurei ler e conhecer melhor a vida e os textos desse genial poeta galês, um dos meus preferidos na literatura inglesa. Abaixo apresento o poema, e recomendo a leitura de toda sua obra. Vale a pena.

E A MORTE NÃO TERÁ CONTROLE

E a morte não terá controle.
Nus, os homens mortos irão confundir-se
com o homem no vento e na lua do poente;
quando, descarnados e limpos, desaparecerem os ossos
hão de nos seus braços e pés brilhar as estrelas.
Mesmo que se tornem loucos permanecerá o espírito lúcido;
mesmo que sejam submersos pelo mar, eles hão de ressurgir;
mesmo que os amantes se percam, continuará o amor;
e a morte não terá controle.

E a morte não terá controle.
Aqueles que há muito repousam sobre as ondas do mar
não morrerão com a chegada do vento;
ainda que, na roda da tortura, comecem
os tendões a ceder, jamais se partirão;
entre as suas mãos será destruída a fé
e, como unicórnios, virá atravessá-los o sofrimento;
embora sejam divididos eles manterão a sua unidade;
e a morte não terá controle.

E a morte não terá controle.
Não hão de gritar mais as gaivotas aos seus ouvidos
nem as vagas romper tumultuosamente nas praias;
onde se abriu uma flor não poderá nenhuma flor
erguer a sua corola em direção à força das chuvas;
ainda que estejam mortas e loucas, hão de descer
como pregos as suas cabeças pelas margaridas;
é no sol que irrompem até que o sol se extinga,
e a morte não terá controle.

Dylan Thomas

terça-feira, 7 de agosto de 2007

Como O Rio Moldau Na Primavera - Parte 1

Li esse texto publicado no NY Times com uma certa ironia. Trabalha o mesmo tema que eu havia escrito num poema inédito, Horses To Andina, e em um conto chamado Primavera No Japão. Não é uma situação muito original, mas a maneira como foi apresentado por Jessie Sholl é que torna a história mais interessante: a relação entre duas amigas que se altera com o relacionamento de uma delas se desenrola com passagens por diferentes cidades do mundo de uma forma romanceada, trazendo todos os vícios literários para esse fim: inclusive parecer com Rosamunde Pilcher, felizmente em um enredo mais curto. Pessoas estão sempre vivendo aproximações e separações. Ou, como eu digo, vivendo os seus "divórcios". Não deixa de ser doloroso, mas sempre faz da oportunidade a chance de compreender que não devemos esperar muito das outras pessoas. "Todos estão mudando", Tom Chaplin canta. O ruim é quando não sentimos o mesmo.
"Uma amizade tão grande que sufoca
Jessie Sholl*
Começou como muitos outros romances: uma apresentação numa festa. Ela e eu escorregamos rapidamente para um papo gostoso, passando da mesa de comidas para o bar e para o sofá, sorrindo e gargalhando, as faíscas entre nós quase visíveis. Qualquer um podia perceber que estávamos nos apaixonando. Só havia um detalhe: nenhuma de nós era lésbica.Eu sempre fiquei fascinada pelas pessoas que me fazem rir. Desta vez, porém, não era tanto o fato de ela ser muito engraçada. Tinha algo a ver com nós duas juntas. Havia uma química -uma química que criou um ninho apertado à nossa volta e deixou todos os outros de fora. No final da noite, tínhamos incomodado quase todos os outros presentes. Foi o início de nosso caso de amor platônico. As duas na faixa dos 20 anos e relativamente novas em San Francisco, ela e eu logo entramos na fase do "nós". Telefonávamos para perguntar: "O que vamos fazer neste fim de semana?", e nunca: "O que você vai fazer?" Ela se tornou meu par permanente em festas e baladas, minha parceira substituta, e eu a dela.No Natal, quando as duas estávamos sem dinheiro para pegar um avião e visitar nossas famílias, comemoramos juntas, bebendo champanhe barata e comendo frango com curry que ela me ensinou a fazer. Ela me deu vestidos de brechó embrulhados em papel que ela mesma havia pintado, e eu lhe dei material de pintura para os intricados desenhos pontilistas que estava fazendo.Nosso caso de amor superou até minha mudança para Nova York para fazer faculdade, três anos depois de nos conhecermos. Nos visitávamos sempre que possível e nos telefonávamos constantemente; num Dia de Ação de Graças conversamos durante três ou quatro horas, as duas comendo sanduíches de peru. Em termos de homens, estávamos sempre procurando, mas na verdade não estávamos atrás de namorados. Procurávamos anedotas para trazer de volta ao ninho e oferecer uma à outra, como alimento: ele beija como um gatinho lambendo leite; a estante dele está cheia de novelas românticas; ele se recusa a tirar o chapéu de caubói até para transar.Pensando bem, é chocante que alguém quisesse sair conosco quando estávamos tão claramente envolvidas."Mais próximas que irmãs", costumávamos dizer. Durante cinco anos ela e eu estivemos como que apaixonadas, mais que melhores amigas. E então, de repente, acabou.Ela foi convidada para uma turnê com uma banda de rock na Europa e me perguntou se eu queria encontrá-la em Praga, cidade que tínhamos combinado de conhecer juntas anos antes, ao ver fotos da viagem de uma amiga. É claro que eu disse sim. Assisti a todas as apresentações, aplaudindo orgulhosamente minha amiga. Então, na terceira e última noite (eu partiria na manhã seguinte para Paris, onde tinha planos, e ela seguiria para a próxima etapa da turnê), sentei-me por acaso ao lado de um americano, e no intervalo começamos a conversar. Acontece que David morava em San Francisco, perto da rua onde eu tinha morado, e estava passando o verão em Praga.Perguntei se conhecia algum clube para dançar, e ele passou cinco minutos desenhando num guardanapo um mapa dos melhores lugares. Depois do show, minha amiga saiu dos camarins e eu convidei David para nos acompanhar, pensando que pelo menos assim não nos perderíamos na cidade.Infelizmente, nenhum clube estava aberto, então David nos levou ao Chapeau Rouge, um bar agitado, cheio de estrangeiros. Não havia pista de dança. Mas ela e eu abrimos espaço no meio do bar, usando toda a nossa capacidade de chocar, fazendo caras-e-bocas de modelos e sacudindo exageradamente o corpo, como nos clipes dos anos 80 que gostávamos de imitar.David, surpreendentemente, não pareceu envergonhado. Ele sorriu, riu e até ergueu o copo, nos brindando em checo: "Na zdravi".Pouco depois, quando ela saiu para tomar um ar, David me perguntou há quanto tempo nós duas estávamos juntas.Eu quase engasguei com a cerveja. "Oh, não, somos apenas amigas.""Espero não ter ofendido", ele disse. "Não, imagine", eu respondi, e nesse exato momento comecei a notar que David era bem bonito.E charmoso. Enquanto ela ficou lá fora conversando, David me falou sobre Praga. Conversamos sobre literatura e sobre os filmes de humor negro de que nós dois gostávamos; ele me fez rir. Nossas banquetas no bar lentamente se inclinaram uma para a outra.Minha amiga, exausta com a apresentação, disse que queria voltar para o hotel. Quando saímos do bar, eu disfarçadamente coloquei minha mão na de David e disse a ela que achava que ia ficar mais um pouco na rua.Horas depois, quando David e eu voltamos ao hotel para pegar minha mala -ele ia me acompanhar até a estação-, pensei que não queria contar a ela sobre nosso primeiro beijo; não queria reduzi-lo a mais uma fofoca engraçada. Pela primeira vez eu voltava de um encontro para nosso ninho de mãos vazias. O que ela iria pensar? Mas eu não precisava ter-me preocupado; ela mal acordou para se despedir.Quando meus planos em Paris não deram certo, voltei alegremente para Praga, onde David e eu passamos três dias escondidos em salões de chá onde se precisava puxar uma corda de seda para poder entrar, vagando pelo enorme castelo medieval e nos fartando de "goulash", com alguns goles de absinto como sobremesa.E tomamos uma decisão: como eu tinha terminado a escola e estava louca por uma mudança, voltaria para San Francisco, pelo menos até ele terminar a faculdade, quando faríamos novos planos. Seria perfeito. Eu ia morar na mesma cidade que meu novo namorado e minha melhor amiga.Agora pecebo como isso foi ingênuo. Mas acho que em certo nível eu já sabia na época, pois alguns dias depois de minha volta a San Francisco ela e eu chegamos a um entendimento mudo: era melhor eu não mencionar David. Mas algumas semanas depois, enquanto tomávamos café, deixei escapar: "Estou com saudades de David".Ela me olhou como se eu estivesse louca: "Mas você não esteve com ele hoje de manhã?" "Sim, mas...", eu comecei, então mudei de assunto.Não demorou para que David e eu fôssemos morar juntos. Certa noite, quando eu sabia que ele ia trabalhar até mais tarde, convidei minha amiga para jantar. Ela parecia abatida. Sugeri que fizesse mais testes, talvez uma nova fita demo com a voz mais trabalhada. Disse que podia lhe emprestar dinheiro para novas fotos. O macarrão que eu tinha preparado esfriou enquanto eu planejava a vida dela, ou o que eu achava que deveria ser.Antes de David, ela não teria se incomodado com meus conselhos; afinal, era o tipo de conversa animadora que sempre tínhamos. Mas é claro que dessa vez tudo havia mudado, e em vez de parecer uma grande amiga simpática e prestativa eu soava mandona e agressiva."Chega", ela disse finalmente. "Já entendi." O próximo encontro que tivemos foi em nosso restaurante de sushi preferido, e ela mencionou uma amiga que tinha começado a namorar um cara e desaparecera; muitas vezes tínhamos falado que detestávamos as mulheres que fazem isso. E então ela disse: "Foi o que você fez. Desapareceu". Pensei em tudo o que eu tinha feito para impedir que isso acontecesse, mas não havia como negar que uma parte de mim tinha desaparecido, a parte que estava apaixonada por David, que eu escondera porque sentia que ela não queria ouvir falar no assunto. Eu quisera muito compartilhar tudo isso com minha melhor amiga, mas sabia que não podia, então guardei para mim.De repente não agüentei mais: "Você tem idéia da pressão que está fazendo contra mim?"Ela fez uma pausa, revirando o sushi, e disse: "Não. Que pressão?""Eu nem posso mencionar o nome dele perto de você!" Ela riu. "Está brincando? Você só fala nele!"Nossa conversa seguiu vacilante depois disso -a certa altura eu disse que gostaria que ela ficasse feliz por mim, e ela recebeu como uma ofensa, mas não sabia explicar por quê. Foi assim: depois de anos encantadas com nossa amizade única, depois de anos usando nossa intimidade para manter os outros afastados, não podíamos nem falar com franqueza sobre o que realmente sentíamos. Não sabíamos como.Ao nos despedirmos lá fora, ela disse que foi bom termos aliviado a tensão. Eu concordei entusiasticamente, mas nossas palavras pareceram ocas, falsas, como algo que diríamos para um cara antes de correr para o apartamento da outra com uma nova anedota muito divertida na ponta da língua. Vinte e quatro horas depois, ela rompeu comigo. Sua voz estava trêmula no telefone quando me disse que não queria mais ser minha amiga. Embora eu devesse ter adivinhado, fiquei tão surpresa que não consegui sentir tristeza, nem raiva. Mal consegui perguntar por quê."Você espera demais de mim", ela disse como explicação. "Como se eu fosse da sua família." A implosão de um amor platônico não é menos devastadora do que a de um amor verdadeiro. Eu chorei, emagreci, não conseguia dormir. Meu coração, ou pelo menos uma área vizinha, doía. Eu sabia que aquilo sobre eu tratá-la como alguém da família era apenas uma desculpa. Afinal, não era isso o que sempre havíamos dito, que éramos mais próximas que irmãs?Afinal, foi proximidade demais. Tínhamos criado um ninho tão apertado, tão sufocante, que não havia espaço para mais ninguém; mal havia espaço para cada uma de nós respirar. É claro que um amor platônico não precisa ser assim, e com muitas amizades próximas não é. Mas no nosso caso foi.Uma coisa eu aprendi dos nossos tempos de colecionadoras de anedotas, e ela também: é melhor ir embora do que ser deixada para trás. Acho que foi por isso que ela agiu assim naquele momento. Porque sabia a simples verdade, mesmo que eu não soubesse, ou talvez ainda não conseguisse admitir para mim mesma: eu precisava fazer uma escolha. E já tinha feito.
*Jessie Sholl é escritora e vive em Nova York
Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves"

sábado, 4 de agosto de 2007

Bad Actors With Bad Habits

Os negativos estavam na estante, ao lado dos textos de Apollinaire. O cheiro de serragem por toda parte, e o silêncio absurdo da rua só serviu de pretexto para nossa fuga. O velho barco, encalhado na margem do rio, lembrava a estranheza do destino. Como fomos parar aqui, pensando nessas coisas...? Eu não sabia o que mais estava por vir. O amor começava pela nuca, com os dedos cavalgando a pressa. Fitava as águas rumando para o mar, e me continha. Se era para ser assim, que fosse um pouco diferente. A dez dias para encenação, você não recorda algumas falas. As mais circunstanciais. As outras, extensas, surgem até nos sonhos sombrios da manhã de vanguarda, quando, envenenado pelo ídolo de pedra, só pensei em dizer que não me importo com seu cabelo azul. Quem sabe uma carta febril, que prometo há tanto tempo, conserte um pouco o dia.

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

You'd Probably Laugh And Say That We Were Worlds Apart.

"As Leis de Família" - filme argentino muito interessante. Chamou minha atenção por algumas razões que o próprio diretor apresenta na entrevista cedida à Folha de S. Paulo, que segue abaixo:

"SILVANA ARANTES da Folha de S. Paulo
Os dois são advogados, mas vivem em mundos diferentes. Enquanto Perelman "pai" (Arturo Goetz) defende suas causas --abusando do charme e dos favores que fazem mover a burocrática máquina judiciária--, Perelman "filho" (Daniel Hendler) ensina direito com "d" maiúsculo na universidade.
A aproximação entre a teoria e a prática (ou entre as duas gerações dos Perelman) acontece depois que o "filho" torna-se pai também.
É quando "As Leis de Família", quinto longa do diretor argentino Daniel Burman, 33, que estréia hoje no Brasil, encontra sua questão central, que o cineasta descreve assim: "Em que nos transformamos quando nos tornamos pais? E o que fazemos com nossos próprios pais nesse momento?".
A indagação sobre a família não é nova na obra de Burman. Ela é o tema dos anteriores "Esperando o Messias" e "O Abraço Partido", que deu a Hendler o troféu Urso de Prata de melhor ator no Festival de Berlim.
"Não há muitos outros temas além da família, porque ela é um microcosmos onde estão representadas todas as razões do mundo", afirma Burman, em entrevista à Folha, por telefone, de Buenos Aires.
O diretor reconhece que sua obsessão cinematográfica pelas relações familiares pode ser associada a um cinema conservador, mas discorda dessa classificação para seus filmes.
"Se, um dia, as relações familiares tiveram a ver com uma arte conservadora, hoje, falar das relações familiares é algo totalmente alternativo e transgressor. Hoje em dia, casar-se, ter filhos, criá-los e tentar sobreviver numa vida em família é um ato heróico que cada vez menos gente tenta praticar."


Um refexo da vida que levamos ou da que fugimos?

quinta-feira, 2 de agosto de 2007

Forma

Neste lugar
amo longe
nas sombras do mangue
fogo em pleno ar
com graça
e fome
tuas mãos móveis como areia
formam concha e escondem
a libido sem nome.

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

3:34 pm

Todas as cidades são uma só. Já a vida não comporta limitações. Se somos cidades cada um, há ruas que não encontram saída. Fora da estética, o caos urbano tumultua o cérebro, nos faz perder a direção. Luzes contra o céu aumentam o tráfego no inconsciente, tornando as placas invisíveis aos olhos do coração. Dispersados na neblina, condensados na parada de ônibus. E vem... Como um choro entre os prédios, a sirene cortando a avenida insone; um despertar ruidoso nas pedras da calçada. Somos quem sorri para si mesmo, aquecendo a distância: cidades isoladas, incomunicáveis, reservadas nos seus problemas e desviando-se dos sinais noturnos de movimentação.