domingo, 11 de novembro de 2007

Low Vibrations

Por razões pessoais, comunico que este blog não será atualizado nas próximas semanas. Estarei de volta em dezembro. Até lá.

sábado, 10 de novembro de 2007

Outrora

Como posso prever o tédio de domingo, os cavalos disputando por uma cabeça, a televisão na outra segunda-feira, com acessos de fúria e dublagem refeita? Onde me colocaram aqui?

Cem metros rasos.
Corrida de obstáculos.
Qualquer coisa.

Vai passar. Tudo passa sem demora, inclusive as vias obstruídas do trânsito. Sou maduro [verde é manga] e sei o que estou dizendo. Pode esperar. Dois quartos, cozinha e dispensa para empregada. Vista para a piscina. Pode esperar. Na avenida, espera-se a condução e mais parece um luxo pelo tempo assim. Lugar-comum. Acredite, boa localização. Você acompanha o juízo final tomando gim.

Férias remuneradas.
Filhos e contas no fim do mês.
Overdose de remédios.

A noite escura acaba com as ondas retornando ao mar. Fantástico. Seremos crianças outra vez e vamos recriar nossos próprios traumas. Nossos momentos corrigidos pelo reflexo do vento. O vento soprado por nossos antepassados, outrora.

O
Que
Fazemos
Aqui,
Alguém
Sabe
Responder?

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

Francisco

O corpo arquejado sobre a janela aberta
para o quintal enquanto os olhos compõem
alguma consideração sobre as manchas impregnadas
[na parede.
As manchas estão também em sua alma e não partem,
entristecendo-o na contemplação das folhas pousadas
no chão de terra batida, envolvendo tudo ao redor
num amarelo tênue.

Francisco queda-se na cadeira próxima e sente
o gosto amargo na boca outra vez; tem dificuldade
de respirar dentro do sossego desta manhã.
E como se acorrentado à realidade que nega,
a realidade imponderável que furta-se a questões ou respotsas,
coloca seu descanso matinal a espreitar sombras
fragmentadas pelo sol que se levanta conivente
com as abstrações de Francisco.

Ele se posta sério e calado e vazio entre planos e ambições
sem substância que suas mãos calejadas tentam
modelar buscando formas e contornos acabados;
mas o equilíbrio se quebra com o chamado para o desjejum.
Francisco adentra a cozinha e encontra sua mulher
carregando a louça, indiferente à sua chegada;
sabe que o cansaço destruiu as expectativas que o tempo
não conseguiu sustentar de uma vida menos dolorosa.

O cheiro do café, porém, o desperta para a libido e tentação
e com a boca entreaberta e as mãos inquietas
aproxima-se dela, transmitindo o calor que esquecera
dentro de si, germinando no silêncio.
A mulher, no entanto, percebe o que se passa e volta-se
com seu olhar transparente, sem esboçar reação.
Francisco compreende que é inútil persistir
e sente-se um homem revoltado no seu próprio lar.

A miséria do amor recebido o derrota
e com algum esforço retorna à janela
para observar o céu demasiadamente grande.
Um pássaro solitário parece suspenso no ar
por fios invisíveis a olho nu.
Francisco é tomado por uma vertigem ao imaginar-se
em seu lugar, manipulado ou preso,
e põ-se a gritar, sentindo sua vida saltar o muro,
[ganhando liberdade.

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Retrato Em Preto-E-Branco

Com a fotografia nas mãos, me perguntava: o que revela esse olhar voltado para a lente da câmara, eternizado em preto-e-branco? Tudo ou quase nada? Talvez a pose ensaiada deixasse mais pistas, embora me fixasse nos lábios entreabertos. Vendo-a assim, serena, com uma passividade absurda, perco o fio da discórdia que tal sensação me oferece, ignorando os dez anos que se passou desde então. É um espaço de tempo paradoxal: quando a vejo, não percebo a sua passagem; como se as marcas físicas que se impõe a todos não a atingissem, apenas havendo o lastro da memória. Memória, diga-se, bastante vasta. Mas onde cada experiência se guarda ou se mostra é um mistério para mim. Conheci somente algumas, de relance, camufladas na linguagem usada e nas histórias que conta quando as lágrimas se tornam irreprimíveis. Os olhos, quando úmidos, dão um sentido de peso, de aniquilamento definitivo. Nessas horas, tento imaginar que força se imprime através deles, mantendo-os em expressão terminativa, de ultrapassagem de toda dor que se mantém oculta. Permanece à flor da pele por instantes, até que o viço fascinante de seu jeito se aninha nas dobras do corpo, me prendendo a atenção. Quantas coisas se perderam dentro do seu coração sincero, quantas se juntaram, se estenderam, se resgataram...? Dúvidas que a imagem estática de um retrato tirado há dez anos não responde. Sim, dez anos, e todas suas escolhas a trouxeram até aqui, instigante como uma paisagem, promovendo o que minha imaginação já perfez sobre a foto.

Nos Subúrbios Da Alma

Muitas vezes uma música me remete a uma lembrança que anula o presente: fico imerso por alguns instantes numa realidade só minha, construída com fragmentos intransponíveis à razão. Pertencem a um tempo e lugar que variam sempre, como se brincassem com meus enganos. Fico a navegar entre destroços da memória, antes que a melodia finde e leve consigo todo o seu significado para longe outra vez. Como acordes e versos de uma poesia aleatória podem captar tanto sentimento, cristalizando na superfície uma lembrança que se desfaz em outra e assim seguindo até os abismos da certeza? Nunca sei bem como tal processo começou com cada uma delas. Se acaso um momento da vida tenha ficado retido, feito um instantâneo, na breve passagem do riff melódico sobreposto pelo clima criado pelo teclado e que orienta toda a canção, acabo cedendo à tentação de fugir desse estigma sonoro, mesmo sabendo que jamais ficarei longe de tal prisão imaginária. Uma parte de mim termina presa a outra pessoa, que de algum modo se converte na sua própria obra. É estranho. Você sabe que ela estava completamente longe de sua natureza quando no processo de criação, mas mesmo assim uma ponte foi construída entre os dois mundos, sendo o meu refletido do primeiro. Ma como... Distanciamos de forma tão igual, como uma aproximação por instinto. Quando vê, percebe apenas, ainda que em silêncio, que não se está mais sozinho. E todo o egoísmo não convence sobre a originalidade de seu discurso. Sim, ele é familiar a outrem. Sua dúvida, sua solução, seu erro, sua percepção da vida interior, está tudo lá. E quando o processo se formula num momento de contato dos subúrbios da alma, a mágica se faz de maneira indelével. Mesmo que se sinta desvendado, denunciado, desmontado, desnudado, o seu universo não irá se opor ao cruzamento de impressões intimistas, versões oculares ou ocultas de desejos que não se pronunciam, de planos que não se realizam, de divagações que não se pavimentam pela solidão da tarde em hesitação.

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Se Você É O Mar

A minha cabeça é uma bagunça
Que se deixa levar na sua fala mansa
Como um naufrágio em águas profundas.

Meu coração é a praia
Que o mar avança
No seu sossego que assusta:

De você me ficou as idéias
Que atracam antes dos barcos
Com as ondas carregadas de saudades.

domingo, 4 de novembro de 2007

Luz E Sombra

A compreensão de uma criança
que caminha em busca dos rastros do sol
é minha paisagem que revivo
por um dia inteiro.

Os movimentos singulares dos pássaros no céu
dão lições ao meu coração que pulsa devagar,
quase perdido no esquecimento.

O ar que entra queimando os pulmões
é um ensejo para que os olhos se abram
trazendo uma doação sem receios.

sábado, 3 de novembro de 2007

Um Dia Em Tóquio

Um dia em Tóquio
Descobriremos sob as luzes da cidade
O verdadeiro sorriso do seu coração.

Um dia longe da beleza do óbvio
Nos trará o perfume da eternidade
Que fácil roubará sua atenção.

Um dia, vindo do céu de ópio,
Cansado dos execessos da idade
E convertido na atmosfera em paixão.

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

The Genius Of P. Schrader

- Eu tenho... É que eu tenho... Tenho...
- Está deprimido? Acontece com todo mundo.
- Sim, estou muito deprimido, muito... Eu queria poder realmente... Fazer alguma coisa.
- Com a vida de taxista, quer dizer?
- Bem... Não, é... Não sei. Eu só queria poder... Realmente... Eu queria... Ando tendo umas idéias bem ruins, eu...
- Bem, veja pelo seguinte lado... Quando um homem aceita um emprego... O emprego... Quer dizer... Se torna o que ele é. É como... Você faz uma coisa, você é aquilo. Eu guio táxi há 17 anos, 10 anos à noite... E não tenho táxi próprio. Sabe por quê? Porque não quero. Preciso ser o que eu quero... Trabalhar à noite num táxi de frota. Entendeu? Ao aceitar o emprego, você se torna o emprego. Um cara mora em Brooklyn, outro em Sutton Place... Um é advogado, o outro é médico... Um cara morre, outro sara, entende? Pessoas nascem. Eu invejo a sua juventude. Vá trepar. Encha a cara. Pode fazer o que quiser. Afinal, você não tem escolha. Estamos todos fodidos. Bem, mais ou menos.
- Isso é a coisa mais cretina que já ouvi.
- Não sou Bertrand Russell, sou um taxista, o que você quer? Nem sei do que você está falando, porra!
- Talvez eu também não saiba.

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Do Rio Que Segue

O leito seco do rio segue duro,
resignado pelo caminho de pedras.
O leito seco corteja as margens
num rito maduro e quase cego.
E as águas que foram outrora
deram aos peixes que assombram
com suas carcaças de terra
o solo morto desconstruído pelo sol.
Há momentos que uma brisa pesada
asfixia o leito anterior, inexistente,
soprando a umidade que de resto
tomba ao chão, na ruptura do tempo.

terça-feira, 30 de outubro de 2007

Poética/Ofício

O quotidiano do poeta foi quebrado
pela fissura da palavra que reteve,
exposta, a transgressão de sua liguagem.
A imagem permaneceu sem expressão
ininterruptamente por todo entardecer
quando o poeta, oblíquo, pôs a quietude
do universo em sua máquina abstrata
e das idéias gerou formas delgadas
que nomeavam a sua própria retidão.

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Letra Som E Numeral

Quando os sons onde estive
chegaram na acomodação das pedras
entrevi a malha aérea
das correntes de vento
e sorri feito criança na insônia
adivinhada pela esperteza.
Soube depois que não haveria
outro tempo para os jogos
que inventei em você.
Fiz mal em chegar tão tarde?
Ainda posso salvar seus olhos
atrasados para o amor.

domingo, 28 de outubro de 2007

Paralelos

Instalações precárias,
sob a ótica desajeitada
da patomima do amor.
O calor elevado do dia
eriça meus sentidos
para cada certeza
que vaga sem palavra
nos gestos ensaiados:
meus punhos cerrados
na galhardia famosa
do ciúme bobo que pede;
a provar o que não temos,
a negar o que queremos
e eu, relapso, não fiz.

sábado, 27 de outubro de 2007

Círculos Capitais

O dia nasce
mesmo quando há impurezas
na textura do azul.
Eu vejo a cidade lenta
dissecar seu conceito de sobreplanejada
em nuances de agressão contemporânea.
Movo olhares
entre as latitudes urbanas
intuindo a paisagem esfumaçada
que retém o trânsito
perturbado por um acidente.
Os mesmos carros tentam
a velha fuga
deixando escapar
as imperfeições em juízo:
rostos duros pelas horas perdidas
e que se valem do luar
em carne viva
reprisado como encenação
da pele doente de suas fantasias.

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Poética/Vertentes

Eu reviro a poesia-retalho
Sem compasso sem ritmo
Poesia à sangue-frio
Relatada pela associação
Palavra demarcada
Na manchete de jornal
E como aflora como implora
O jeito de expandir-se
Em sentidos e sensações
A manter o pulso
Calcado na batida do mundo:
Asfalto cocaína depressão
Guerra terror consumo
Pedra sapato avião
A poesia questiona
Sobre partes convexas
Medidas de contraponto
Restos jogados na rua
E devorados na humilhação
De seres humanos vazios
Que, refletindo-se, esvaziam-me,
Restando um opaco refluxo
Da minha condição de poeta.

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Se Eu No Seu Olhar, Afinal [Hélice]

Porque me desfaz de um jeito
que eu não posso opor -
sutileza na forma de prazer
[com os lábios pregados no meu]
diverte-se em espasmos coloridos
retardando a condição
de abrigo para a noite escura
que nos cerca, como agora.
É engraçado como o instantâneo
revelado me deixa tão exposto
às artimanhas tão próprias
de você, um vício perdido
para meu mal.
E eu me pergunto;
onde caí, onde fui parar?
Pensamentos revertidos de chumbo
não produzem, estranhamente,
o som metálico quando arrastados
pelo asfalto: são desfacelados
quando seus olhos os penetram
e os buscam, na vigília do amor...
Seria esse o nome de sua insensatez?
Incontrolável eu me torno
rondando signos para a corrupção
proposta em seu nome.
Amor, se isto há, se guarda nos dentes,
marcando a língua;
não na aspereza libidinosa,
mas na intimidade dos laços atados:
como suas mãos e anéis
anunciando um confronto
um conforto um estorvo
de não estar mais aqui
e ser apenas um rascunho na memória.
Há saída, de outra forma?

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Eu/Relativo Público

Estava fazendo uma pesquisa na internet sobre a adaptação cinematográfica de O Amor Nos Tempos Do Cólera quando deparei-me com um comentário bastante intimista acerca da obra original de Márquez. Tal o autor da referida matéria, também acredito em uma produção menor frente ao caso de amor que atravessa anos e que nos é contado de forma expressa, como a chamarmos para nossas próprias paixões à espera. Fiquei bastante impressionado quando devorei o livro, à época em que vivia de maneira mais intensa minha admiração pela produção de Gabo. Assim como um dia estive envolvido com Borges, o mestre. Borges, aliás, que me reapareceu em um poema de sua autoria traduzido por Millôr, e que me foi passado por um amigo. Aqui o reproduzo. Sublime.



LIMITES

De todas as ruas que escurecem ao pôr-do-sol,
deve haver uma (qual, eu não sei dizer)
em que já passei pela última vez
sem perceber, refém daquele Alguém

que, com antecedência, fixa leis onipotentes,
ajusta uma balança secreta e inflexível
para todas as sombras, formas e sonhos
tecidos na textura desta vida.

Se há um limite para todas as coisas e uma medida
e uma última vez, e nada mais, e esquecimento,
quem nos dirá a quem nesta casa
nós, sem saber, já dissemos adeus?

Pela janela que amanhece a noite se retira
e entre os livros empilhados que lançam
sombras irregulares na mesa baça,
deve haver um que eu jamais lerei.

Há uma porta que você fechou pra sempre
e algum espelho o esperará em vão;
para você as encruzilhadas parecem muito amplas,
mas há um Janus, vigiando você, nos quatro cantos.

Há uma entre todas tuas memórias
que agora está perdida além da evocação.
Você não será visto descendo àquela fonte,
seja à luz do sol claro, nem sob a lua amarela.

Você nunca recapturará o que o Persa
disse em seu idioma tecido com pássaros e rosas,
quando, ao pôr-do-sol, antes que a luz disperse,
você quer pôr em palavras tanto inesquecível.

E o Rhone fluindo sem parar, e o lago,
todo esse vasto ontem sobre o qual me curvo hoje?
Estará tudo tão perdido como Cartago,
queimada pelos romanos com fogo e sal.


Jorge Luis Borges

domingo, 14 de outubro de 2007

We’re Way Behind

Acordei com a lembrança falsa de favores amorosos prestados por uma velha amiga. Não me sentia, entretanto, enganado pela memória. Apenas perscrutava o fluxo de imagens confusas, como se a noite anterior tivesse passado imersa em álcool e brilhantismo. Moças sorrindo, desconhecidos olhando torto para mim, a nave secular da soberba humana pairando sobre nossas cabeças, num revanchismo retórico. A cidade fora dos pátios gradeados repartia-se em duas; aludindo à figura mítica da hidra. Em pouco tempo, sombras tomaram o lugar de tudo o que via, até restar, no dia seguinte, meu rosto cansado, frágil pelas certezas ausentes. Quem estava lá, afinal? Somente um rosto recorria aos esforços contra a amnésia temporal, um rosto familiar, inclusive aos apelos de afago passageiro. Mais uma história que não terminou na minha vida, deixada em aberto para um futuro talvez. Ela me resguardou do desgaste que a noite impôs aos que avançaram contra si mesmos? Era constrangedor perguntar. Mais: era intimidador. Como não podia sublinhar de minha demência etílica, fiquei divagando, ainda deitado. Uma larga hora se passou. A manhã ia alta, e eu entregue ao que pude ter feito, ao que não pude fazer, elementar na hipótese sensual.

sábado, 13 de outubro de 2007

We're Inside

O som da guitarra está muito alto. Eu olho para as cabeças pendentes como se entendessem a mensagem, e fico perdido por alguns segundos entre os outros. Calma. É só um show. A guitarra distorcida faz parte do clima. Não se perca. Beber, já naquela hora, não fazia mais sentido. Mas ainda assim eu continuei, transitando entre as pessoas, encontrando amigos, que conversavam gritando no meu ouvido. Eu ouço vozes, mas não sei de quem são. Quando a música chegou ao fim, a seguinte foi anunciada pelo vocalista com um grunhido no microfone. Às vezes eu penso se tudo o que me lembro não passa de uma alucinação. Se não estaria em outro lugar, outro plano, em outra mente? In Rainbows. Sim, eu sei. Não, ainda não. Hoje estava com vontade mesmo de ouvir In Limbo. Não percebem. O novo é o velho transvertido nos suaves tons da revolução tecnológica. Você vai acordar amanhã e não lembrar de mais nada. Até lá, vai ignorar minhas opiniões. Elas não são para divertir. Isso você já tem no palco, nos últimos acordes. Não quer ouvir sobre algo que não esteja aqui. As pessoas. Aqui, buscam uma postura mais rock ‘n’ roll. Surpresa: o rock não existe. Tudo o que vemos aqui não é real. Lógico, não é fácil perceber. Porque quando estamos entretidos demais com o movimento... O raciocínio não pára em ponto algum. Apenas se desloca pelo tempo, no vórtice da beleza sonora. Quantos se sentem transmutados no lirismo selvagem, pulsando o inconsciente inexplorado? Entre o sono e a insônia, o tédio e a loucura, a verdade e a ventura. Um caos que se desloca com a saída para a noite quente.

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Untitled - III

Os carros fora da rota
As pessoas fora de hora
Aves migratórias
no espaço tão longe
vão buscar o que faltou
nos corações dilacerados
pela aventura noturna.

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Do Lado De Cá - Parte 2

O segundo ensaio, de autoria de Hélio Schwartsman.


República dos bacharéis

Como estou sem assunto, hoje vou falar mal de advogados. Tenho o privilégio de dar-me com excelentes profissionais dessa bonita carreira, mas isso não me impede de acusar os arroubos corporativistas da categoria, que tanto mal causam ao país.
Um exemplo recente dá bem a idéia do que quero dizer. Numa rara iniciativa elogiável, o Senado Federal aprovou no final do ano passado dispositivo que simplificava as separações consensuais de casais sem filhos menores, dispensando-as de passar pelo crivo do Judiciário. Bastaria um registro público em cartório para consolidar a dissolução do matrimônio. (Podemos é claro nos perguntar por que diabos alguns ainda insistem em informar o Estado de que pretendem viver juntos, mas essa é uma outra questão). Era uma medida desburocratizante, simplificadora e que ainda contribuiria para aliviar a enorme carga de processos que atola a Justiça brasileira. Foi, portanto, rapidamente deturpada.
Por intermédio do deputado e advogado Maurício Rands (PT-PE), a república dos bacharéis conseguiu introduzir uma emenda que obrigou as partes a contratarem os serviços de um advogado. Com isso, a separação se tornou um pouco menos simples e mais cara. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva não teve a coragem de vetar essa excrescência, de modo que o projeto acabou sendo aprovado com a alteração ditada pelo lobby da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). No mínimo, a norma viola o princípio da razão suficiente: se não é necessário consultar um advogado para casar-se, tampouco deve ser obrigatório ouvir um na hora de dissolver a união por comum acordo. Mas é melhor eu parar antes que alguém tenha a idéia de fazer uma lei tornando necessária a presença de advogados em altares e dosséis.
Parece brincadeira, mas não é. Entre outras maldades que a OAB já tentou impingir ao cidadão está a necessidade de constituir advogado até para ir aos tribunais de pequenas causas e juizados especiais. O golpe constava do Estatuto do Advogado, a lei nº 8.906/94, bolada pela ordem e sancionada pelo Congresso Nacional. Só não se converteu em realidade porque, na Ação Direta de Inconstitucionalidade nº 1.127, movida pela Associação dos Magistrados do Brasil, o Supremo Tribunal Federal considerou nulo o dispositivo legal que tornava privativo de advogados "a postulação a qualquer órgão do Poder Judiciário e aos juizados especiais" (art. 1º, I). A expressão "qualquer" é que foi julgada inconstitucional. Ou seja, não foi uma vitória completa, pois continua havendo instâncias em que o cidadão não pode representar a si mesmo, sendo legalmente compelido a procurar um advogado. A dispensa do profissional só vale em juizados especiais, na Justiça do Trabalho e em ações de "habeas corpus".
Não me entendam mal. Acredito no velho ditado segundo o qual "a man who is his own lawyer has a fool for a client" (o homem que advoga por si próprio tem um tolo por cliente). Quero, entretanto, ter o direito de fazê-lo, ainda que não pretenda exercer tal prerrogativa. O que está em jogo aqui são os próprios pressupostos da República. É absurda a idéia de que eu possa escolher, pelo voto, as principais autoridades do Executivo e os membros do Parlamento, que escreverão e aplicarão as leis do país, mas seja considerado incapaz de representar apenas a mim mesmo diante de um juiz. Pior ainda é que isso ocorra por força de pressões escancaradamente corporativistas de uma associação profissional.
De resto, todo o pleito da OAB repousa sobre uma base logicamente frágil. O que a Constituição diz em seu artigo 133 é que o advogado é "indispensável à administração da justiça". Eu próprio concordo com a assertiva. Não sou capaz de vislumbrar um sistema judiciário no qual inexistam advogados. Mas isso de maneira alguma implica que eles devam ser onipresentes. A própria Carta é explícita ao afirmar que todos --o que inclui menores de 18 anos e estrangeiros--, têm o direito de peticionar "em defesa de direitos ou contra ilegalidade ou abuso de poder" (art. 5º, XXXIV). A doutrina corrente limita o escopo dessa injunção ao "habeas corpus". De minha parte, considero que qualquer ação judicial tem a ver a com a defesa de direitos.
Também se chega à mesma conclusão pela via do absurdo. Um cidadão pode, com base no Código do Consumidor, recusar um por um todos os advogados que lhe sejam apresentados. Ora, se esse putativo indivíduo for levado a julgamento e não puder representar-se, terá prejudicado seu amplo direito à defesa, hipótese que a Constituição não admite. A possibilidade de auto-representação mesmo em ações penais torna-se assim, "ex fortiori", uma necessidade lógica.
Diga-se em favor dos advogados que colocar os interesses da categoria à frente dos da população não é exclusividade sua. Na mesma senda caminham notários, médicos, engenheiros, jornalistas, políticos. O problema é que, no Brasil, qualquer grupo que tenha um mínimo de organização obtém sucesso senão em todos os pleitos ao menos em parte deles. O resultado é uma miríade de leis e regulamentos que, afora atender às demandas corporativas, só servem para frustrar direitos e dificultar a vida.
Uma demonstração eloqüente dos excessos burocráticos foi dada na semana passada pelo Banco Mundial, que divulgou a versão 2008 de seu já clássico relatório "Doing Business", no qual faz o ranking dos países que oferecem melhores condições para empresários. Pela quinta vez consecutiva, o Brasil faz péssima figura. Ficou em 122º lugar entre as 178 nações avaliadas. Por aqui, abrir um negócio cobra 152 dias perdidos com procedimentos legais e correspondente papelada. Na Austrália, bastam 2. A média dos países desenvolvidos (OCDE) é de 15 dias. Só não nos saímos pior do que Congo, Guiné-Bissau, Suriname e Haiti. E isso provavelmente porque o Haiti se encontra sob ocupação de tropas brasileiras.
Hoje eu centrei fogo nos advogados, mas críticas semelhantes podem ser feitas a praticamente todas as categorias profissionais. É claro que defender interesses de classe é legítimo. Os problemas começam é quando organizações como a OAB se tornam maiores do que sindicatos --que é o que deveriam ser-- e passam a acumular poderes desproporcionais, como o de indicar juízes, escrever leis, propor ações diretas de inconstitucionalidade, definir quem pode e quem não pode tornar-se advogado. É preciso depurar o Estado das pressões corporativas que o tomam de assalto, ou ele jamais poderá atuar de forma republicana.

Do Lado De Cá - Parte 1

Hoje eu postaria um texto de minha autoria. Mas li duas colunas belamente escritas na Folha de S. Paulo, tratando de assuntos relevantes para mim, que merecem destaque: um de ordem cultural e o outro de natureza pessoal. Muito já questionei e divergi sobre o papel das telenovelas, ainda mais diante de alternativas oportunas para um esclarecimento maior do intelecto e do senso crítico de cada um. A segunda coluna... Bem, fala por si. O curso maldito que acabei escolhando para mim, o Direito. A profissão encalhada nos abismos burocráticos mais insanos possíveis, mas que cobram pra si todas as prerrogativas ontológicas, debochadas em doutrinas rasas que vergam a profundidade dialética digna de um palhaço levado à sério.
Aqui vai o primeiro ensaio, escrito por Sérgio Malbergier.



A nova novela é velha

Escrevi aos 16 anos meu primeiro texto para a mídia impressa. Era uma carta endereçada à "Veja" reclamando de uma edição de agosto de 1981 que trazia Regina Duarte na capa. Xingava a revista porque, naquela semana, meu ídolo Glauber Rocha tinha morrido. Como a maior revista do país não percebia que a morte de Glauber era muito maior que qualquer personagem de Regina?
A carta não foi publicada, e penso que a revista faria a mesma opção de capa hoje, por motivos razoáveis.
A longevidade e a centralidade das telenovelas é impressionante. Desde o "Direito de Nascer", em 1964, elas dominam e moldam nossa indústria do entretenimento. O gênero não nasceu no Brasil. No começo, importávamos e adaptávamos textos mexicanos e argentinos, que eram redigidos não por autores contratados pelas emissoras, mas em agências de publicidade tuteladas por patrocinadores como Gessy Lever e Colgate-Palmolive.
Em poucos anos as telenovelas já lideravam a audiência no país, e nossos autores e homens de TV deram o pulo do gato: abrasileiraram os dramalhões latinos, introduzindo nossa peculiar realidade social.
A estrutura dos folhetins, porém, continua igual, com os mesmos enredos e tramas, fincados nos romances do distante século 19, envolvendo paternidades trocadas, cinderelas ascendentes, vigaristas cínicos, heroínas ingênuas.
Mas a esse rígido receituário foram sendo acrescentados o espírito da época, a história do ano, alguns dos grandes temas da agenda nacional. O esmero na arte telenovelesca, que tornou o Brasil o maior exportador mundial do produto, garantiu seu reinado absoluto na cultura popular do país. E já se passaram quatro longas décadas.
É um paradoxo. Autores como Janete Clair e Dias Gomes e atores como Lima Duarte e Tony Ramos consolidaram uma dramaturgia nacional, mesmo que pobre, e levaram a telenovela a registros de alta qualidade dentro do gênero, seu estado da arte. Mas sua dominação sobre nossa produção cultural, principalmente a audiovisual, nos empobrece.
A novela é antes de tudo um produto comercial, como, digamos, uma pasta de dente. Ela tem de dar lucro, muito lucro. É sua prioridade única, o resto é enfeite.
A TV Globo orbita em torno do drama das oito. Se a novela vai bem, a emissora vai bem. E, ao contrário das sitcoms semanais que dominam a audiência nos EUA, a telenovela é diária. Enquanto CBS, NBC e ABC têm cinco seriados por semana para cativar o público americano e, com ele, os anunciantes, a Globo só tem um tiro, a novela das oito. Ele tem de ser certeiro, e para isso vale tudo, com pressão enorme sobre seus autores e diretores, boa parte enfartada.
Não há como fazer a novela girar em torno de prioridades artísticas, apesar da enorme boa vontade de alguns críticos culturais. Ela sai a toque de caixa. Assim, na média, a luz vem chapada, o texto, sofrível, o desempenho dos atores, risível. Não pode ser diferente. As condições de produção impõem a mensagem.
Numa brava e histórica entrevista à Ilustrada, em março de 2006, Lima Duarte desabafou:
"É duro fazer novela. Está cada vez mais cansativo. Estão escrevendo a mesma história há 40 anos. Faço o mesmo personagem, e o público chora a mesma lágrima, no mesmo horário. Mas o povo não deixa mudar".
Quando pensei em escrever sobre a recente troca de bastão na novela das oito, de "Paraíso Tropical" para "Duas Caras", meu espírito era limaduartiano, de revolta contra os telenovelixos e sua intrínseca precariedade.
Mas alguma leitura e uma amiga, Heloisa Pait, Ph.D. pela New School de Nova York e professora da Unesp, me apontaram méritos inegáveis das telenovelas brasileiras, como a transmissão de alguma cultura aos menos educados e de um sentimento de coletivo aos telecidadãos com menos oportunidades de instrução e inserção. A eles a novela pode acrescentar.
Mas é constrangedor ver essa multidão de diplomados e bem instruídos, incluindo os que lêem este texto, mamar também nas tetas bregas de Gilberto Braga e cia, gastarem uma hora por dia, seis horas por semana, mais de 300 horas por ano com as peripécias de Bebel e Antenor.
A boa notícia é que a audiência da novela das oito declina, enquanto explode a penetração de computadores (e, com eles, da internet) nos lares brasileiros. Daí virá a revolução, que não será televisionada.
A telenovela não deve ser tudo isso no Brasil. O país precisa ser maior que elas, tirá-las do horário dito nobre. Desligue sua TV hoje na hora da novela e faça qualquer outra coisa.
Vai ser melhor para você.

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

The Genius Of C. Kaufman

- Só espere. Eu não sei. Quero que espere... Um pouco.
- OK.
- Mesmo?
- Não sou um conceito, sou só uma garota ferrada procurando por paz de espírito. Não sou perfeita.
- Não vejo nada que não goste em você.
- Mas verá.
- Agora eu não vejo.
- Você vai achar coisas. E eu vou ficar entediada e me sentir presa, pois é isso que acontece comigo.
- Tudo bem.
- Tudo bem? Tudo bem! Tudo bem...

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Confessionário De Manoel Gomes

Fui-me acolá
na montanha solfejar.
Por quê? Olha assim?
Tenho apreço pelos ratos-capitais
rolando na grama verdejante
do seu jardim.
Um dia próspero às façanhas
das quais nada sei
de cor:
só o desperdício de sol
vociferando, ardente,
pela paisagem que me conduz
ao esmo.
Porque afinal a fantasia
me doma as picardias
de verão tão preguiçoso:
à espera de brisa
e engenharia
que ponha os sonhos de pé.

sábado, 29 de setembro de 2007

Untitled - II

Hoje eu acordei cinza
com a vontade urgente
de trazer ao corpo
o que passa aqui dentro
antes que a pele morta
deixe a carne exposta
à fragilidade da luz.

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Black Paintings

Era o ano de 1969, e fazia um calor horrível lá fora. Ela escutara os seus discos dos Beatles enquanto anotava a conversa que tivera com o pai no diário. Agora, deitada na cama esperando o jantar, pensava na morte e isso lhe bastava. Muitas fantasias se formavam, sem aparência, e emparelhavam num desfile negro diante de seus olhos. Às cores chegavam o canto da janela mal iluminado pelos riscos de sol que penetravam a folhagem da árvore próxima à casa. Não saberia conceber detalhes de sua vigília macabra, mas resistia aos pontos cinzas que se tornavam negros e densos, permanentes. O caráter divergente nõa lhe interessava propriamente; queria apenas manter o controle, por menor que fosse. Pois não contava com o avanço das horas, e até que todas as luzes da casa estivessem acesas, bem como o poste defronte, não aquietou-se com o falatório de seus pequenos fantasmas, que vieram a esconder-se em sua mente afastada dos mistérios da fé. Propôs diálogos retóricos, mas eles se manifestavam através de ruídos falsos que pouco a pouco lhe ensurdeceram os ouvidos. Por isso, não escutando o chamado insistente da mãe para o jantar, permaneceu deitada, na execução de sua sinfonia cerebral.

terça-feira, 25 de setembro de 2007

Janet Out Of Janet

Todo gênio furta-cor
nos seus lábios rosados,
o que poderia sentir?

Neste céu agreste
que desenho em sua boca
(com o traçado imaginado)
para a hora de fugir.

Porque a queixa da instância
revela-se um passado misterioso
que antevejo no seu destino
e farta-se a consigo sorrir:

sua forma de prazer
que de maneira muito própria
expõe-se em breve, por vir.

domingo, 23 de setembro de 2007

Speech: Take 3

- Caroooool - diz:
e tu?
Rafael - diz:
dediquei meu dia ao ócio.
Rafael - diz:
nem terminei o livro que estou lendo. mesmo faltando só 40 páginas
- Caroooool - diz:
aquele enoooorme?
Rafael - diz:
sim =)
Rafael - diz:
tô triste por estar perto do fim.
Rafael - diz:
tipo, me apeguei muito aos personagens
- Caroooool - diz:
hauahauahauahauaauahauahaua
- Caroooool - diz:
cara, acredito não xP
- Caroooool - diz:
só tu mesmo.. tem livro que eu gosto, mas tem hora que não agüento mais ler
Rafael - diz:
ah, mas depois de 405 páginas não tem como não criar um vínculo com os personagens... Tornam-se próximos, parecem pessoas que me passam a sensação que as conheço muito bem.
- Caroooool - diz:
e o livro deve ser muito bom tb ^^
Rafael - diz:
demais
Rafael - diz:
Ian McEwan é o cara
- Caroooool - diz:
não conheço, mas se você diz.. eu confio ^^
- Caroooool - diz:
esse ano só li coisas relacionadas ao budismo..
- Caroooool - diz:

Rafael - diz:
que coisa boa
Rafael - diz:
minha religião é apagada de conceitos estudados
Rafael - diz:
só os vividos
- Caroooool - diz:
é.. tem um ensinamento de Buda que ele fala pra você não se prender as tradições.. aos textos.. as escrituras sagradas.. e tal
- Caroooool - diz:
gosto disso
- Caroooool - diz:
mas ainda acho indispensável estudar
Rafael - diz:
sempre é.
Rafael - diz:
só nunca pensei em encarar minha religião como fundamento intelectual.
- Caroooool - diz:
assim.. tua religião tem nome ou você a fez.. seguindo os teus princípios e crenças?
Rafael - diz:
minha religião, em tese, é a católica. não só por criação como por opção, mesmo. mas não compactuo com a maioria de seus preceitos
- Caroooool - diz:
entendo =T
- Caroooool - diz:
não me considero mais católica..
- Caroooool - diz:
mas tb não sou budista
- Caroooool - diz:
enfim.. tô numa fase de conflito
Rafael - diz:
acho que a humanidade caminha para isso
Rafael - diz:
cada homem vai buscar sua própria fé
Rafael - diz:
cada um vai se apropriar dos preceitos com os quais sente uma ligação, os quais encare como Verdade
- Caroooool - diz:
é.. vai ficar uma mistureba
- Caroooool - diz:
hauahauahauaahauahauaha
Rafael - diz:
uma miscelânea

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

Untitled - I

Eu me proponho a ser teu próximo vício, e, depois, tua terapia ocupacional. Teu spa. Tenho e vejo tua carne sobre a carne, sondando. Teus ossos inquebráveis, violentamente reprimidos sob a pele seca. Ou sequiosa? Ora revelo ou escondo na mão um refúgio, na timidez sincera, para o tom vermelho do céu, presságio mascarado do calor de setembro. Esse calor que rouba teu juízo, te entregando para mim.

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Concepção - Parte 2

Fui aprendendo a distinguir o peso do céu no final da tarde à medida que assimilava o sentido de perda em minha vida. Em como me expunha fácil... E usava palavras fora do meu caráter. De que modo seria mais coerente comigo? Como deixaria o demônio longe com suas provocações? Na perspectiva do tempo, eu estaria três ou cinco anos mais velho por dentro do que tudo o que acontecia do lado de fora. Isolado numa fortaleza de enganos contínuos e precipitações, era acuado pela realidade que soprava sobre os muros, às vezes por horas seguidas. Mas o desejo de escapar sem os horrores vicejantes na pele era implacável, e eu passava mais uma noite em sono profundo. Desejo vão. Inconscientemente, dormia até de mim, para acordar tomado pela surpresa que as experiências são sempre maiores do que vemos através dos olhos: é preciso ir além de si; sem medo.

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

Concepção - Parte 1

Alguns romanos dormiam quando a cidade foi tomada pelo fogo. O imperador observava o espelho refletindo sua retina desgastada, e nada sabia. Pensava apenas na própria sorte, numa projeção amarga do futuro. Um futuro que nunca lhe aconteceu de fato. Surpreenderia-se Nero com a inversão de papéis que se operaria após o incêndio? Saberia que os palácios mais suscetíveis são os construídos nos limites da compreensão humana?

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

Lonely Horses

Fui teu corpo, tuas entranhas, tua lágrima seca no rosto. Fui tua ausência inesperada, nas ruas vazias pela madrugada quente. A boca, porém, não dizia coisa alguma - era o silêncio um espaço entre nós dois. O carro em movimento servia como preâmbulo do amor usado entre as ferragens da memória, deslocada no tempo. Fui teu destino, teu erro ou teu risco: um mapa desnorteando a prudência da vida.

domingo, 19 de agosto de 2007

Then Life Ain't Worth The Drown

Quando a noite adormece
nos objetos da casa
é possível sentir através das portas
os ossos duros do mundo,
movendo-se com lentidão.

Não reconhecem mais a si próprios,
e como as dobradiças enferrujadas,
rangem sua dor surda -
privados do sono que os guia.

(As portas trancadas não revelam
a memória que se abre
para as outras portas do mundo.)

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

A Thing Of Beauty Is A Joy For Ever

Pense em uma tarde nublada e como as pessoas reagem às nuvens no céu. Em como ficam em suas casas, sem nadar para fazer e sem lugar para onde ir, pensando em suas vidas. Uma hora e a televisão ligada, uma forma estranha de companhia, com os comerciais cada vez mais demorados. Uma hora e vemos coisas inúteis na nossa frente; vemos nosso silêncio na janela. Você vai e decide ligar para a pessoa que não encontra há meses, esquecendo como é seu rosto. A pessoa atende e fica surpresa, mas não sabe bem o que falar. Você lembra do tempo em que era jovem, e isso não significa mais nada para ela. O constrangimento é tanto que você acha melhor se despedir e desligar, antes que se sinta realmente embaraçado. Minutos depois está de volta ao seu sossego na frente da televisão, ela pelo menos disfarça sua simpatia com estranhos. A televisão arranca seu falso interesse justamente como você faria em uma mesa com amigos de infância que agora perguntam simplesmente o que você anda fazendo. O que você faz não interessa realmente a elas, assim como a televisão não se incomoda se você prepara o jantar enquanto ela fala para a sala vazia. Mas o som... O barulho é que se torna importante. Torna-se constante, na verdade, e isso é bom. Você dorme. Você acorda. Os rostos se revezam na sua frente, mas os sorrisos são sempre iguais. Sorrisos que prometem um dia glorioso, carregado de símbolos que lhe atravessarão por anos a fio. Mas, lógico, isso não acontece. Está fora de seus planos. O conforto é mais importante. Você decide ler um livro. Melhor, você decide escrever um livro. Um livro que todos irão ler. Um livro sobre dias inteiros vividos na frente da televisão. Um livro sobre suas vidas nubladas.

quinta-feira, 16 de agosto de 2007

The Lines That Never Fails - Parte 3

"“A marcha, escreve Piglia, supõe leveza, agilidade, rapidez. É preciso desprender-se por completo, estar leve e andar. Mas Guevara mantém um certo peso. Na Bolívia, já sem forças, carregava livros. Ao ser detido em Ñancahuazu, quando é capturado depois da odisséia que conhecemos, uma odisséia que supõe a necessidade de movimento incessante e de fuga ao cerco, a única coisa que ele conserva (porque perdeu tudo, não tem nem sapatos) é uma pasta de couro, que leva amarrada ao cinturão, sobre a ilharga direita, onde guarda seu diário de campanha e seus livros. Todos se desfazem daquilo que dificulta a marcha e a fuga, mas Guevara continua mantendo seus livros, que pesam e são o oposto da leveza exigida pela marcha.” (pág. 103) A capa do livro (da autoria de Angelo Venosa) foi inspirada numa fotografia de Ernesto Guevara lendo no alto de uma árvore. É uma imagem notável do guerrilheiro – homem de ação – que faz uma pausa para ler. Armas e letras, dois temas medievais explorados no Dom Quixote, parecem reviver nessa imagem em que o leitor, significativa e simbolicamente, situa-se no alto. Longe de ser uma posição de quem se sente elevado, a altura, aqui, é uma posição precária, que denota perigo e instabilidade. O inimigo pode estar por perto, pode surgir a qualquer hora e matar o guerrilheiro-leitor. Na fotografia é impossível reconhecer com nitidez a figura de Guevara, mas o observador sabe que lá no alto, sentado num galho, alguém olha para um livro. O fundo da fotografia é alaranjado, de uma tonalidade que evoca o fogo crepuscular: começo ou fim do dia. Ou luz que se esvai, anunciando a noite, o enigma do que vem por aí. Não sabemos se este livro é o último que Guevara leu. O último leitor é a metáfora de uma atitude diante da leitura: alguém que não pode viver sem livros. Narrar para não morrer é a mensagem de Sherazade ao rei Shariar (e ao leitor) em cada conto do Livro das mil e uma noites. Ernesto Guevara lê para viver. Ou suportar a vida: fado de um homem que vivia perigosamente à beira da morte. Mas ler é também o destino de tantos outros seres que não se lançam à aventura utópica de transformar o mundo por meio da ação revolucionária. Esse leitor apaixonado forma o duplo do escritor. E ambos justificam a literatura."
Artigo de autoria de Milton Hatoum e publicado originariamente na revista EntreLivros Ago/07.

The Lines That Never Fails - Parte 2

"Um bom leitor reescreve o livro com a imaginação de um escritor. Alguns vão mais longe. Com os olhos no texto e um lápis na mão, eles fazem anotações nas margens das páginas, sublinham frases, cravam aqui e ali pontos de interrogação. Há os que elaboram fichas com resumos ou esquemas do enredo, árvores genealógicas, comentários sobre o tempo da narrativa, posição do narrador, personagens, idéias, metáforas, ambiente político, social etc. Esse leitor incansável seria o leitor ideal, mencionado por Umberto Eco no ensaio Seis passeios pelo bosque da ficção.No Tempo redescoberto – último volume do Em busca do tempo perdido –, o narrador de Proust faz uma reflexão sobre esse tema. Um livro, diz o narrador proustiano, pode ser sábio demais, obscuro demais para um leitor ingênuo. A imagem que Proust evoca é a de uma lente embaçada entre o olhar e as palavras: um anteparo à leitura. Mas o inverso também acontece quando o leitor astucioso revela capacidade e talento para ler bem. De acordo com o autor francês, “cada leitor é, quando está lendo, o leitor de si próprio”. Ou seja, uma obra literária permite ao leitor discernir tudo aquilo que, sem a leitura dessa obra, ele não teria visto ou percebido em sua própria vida. No quarto capítulo de seu belo ensaio O último leitor, o argentino Ricardo Piglia lembra a figura de um leitor incomum: o revolucionário e guerrilheiro Ernesto Guevara. O comandante Che sonhava ser escritor, mas o compromisso político-social o conduziu a outras veredas. No entanto, ele escreveu diários de viagem, textos sobre técnicas e estratégias de guerrilha, relatos inspirados diretamente em sua experiência revolucionária em Cuba, na África e na América do Sul. O que não falta em suas incansáveis viagens – inclusive a última, pouco antes de morrer – é o livro, a leitura."

The Lines That Never Fails - Parte 1

"Há tanta diferença entre a “atitude" de quem lê e a de quem escreve? Um dos problemas cruciais do leitor e do escritor é a falta de tempo, decorrente da pressão do dia-a-dia. Os escritores que vivem de sua pena não podem escolher uma hora do dia ou da noite para trabalhar. Mesmo os que tiveram ou têm a sorte de não depender do trabalho da escrita, revelam-se compulsivos, ávidos para narrar. O que deve ser escrito é inadiável. Deixar para escrever mais tarde, amanhã ou outro dia qualquer só atrapalha o andamento da narrativa. Adiar um trabalho pode ser um alívio para um burocrata, não para um escritor. Ainda assim, há momentos de pausa e reflexão, de pesquisa e anotações, e, às vezes, de interrupções forçadas, um verdadeiro castigo para quem escreve. E há também pausas para leitura: a urgência de escrever não é menor nem menos intensa do que a urgência de ler. “Escrevo porque leio”, afirmam alguns escritores. Mas um leitor poderia dizer: não escrevo nada, mas é como se a leitura fosse um modo de escrever, de imaginar situações, diálogos e cenas que a memória registra no ato da leitura. O pior leitor é o passivo, resignado, que aceita tudo e lê o livro como uma receita ou bula para o bem viver. Este é o não-leitor. Porque o texto de auto-ajuda é um compêndio de trivialidades, palavras que não questionam, não intrigam nem fazem refletir sobre o mundo e sobre nós mesmos."

quarta-feira, 15 de agosto de 2007

Véspera

Esta cidade, submersa na rotina
de seus dias sem causa,
traz as memórias de minha infância
em sua carne.

Memórias miúdas, passadas em lugares
que já nem sei bem haverem
como eu os imagino nesta idade de hoje.
Se os passeios da mesma forma se foram,
esta verdade não me interessa mais.

O que eu ainda revisito,
como o rio insone e a praça da igreja,
levam meus olhos para outro tempo:
seguem estreito pela margem das gentes
até onde, o homem sendo feito,
torna à boca uma sensação
um pouco amarga.

terça-feira, 14 de agosto de 2007

Bem Vindo Ao Mundo, Porque É Assim Que Ele É

Fiz pouco caso quando me pediu para entrar. Sentei mesmo na calçada e contei estrelas até que o infinito se firmasse em minha imaginação como algo concreto. Precisava de algo real a que pudesse me agarrar antes da queda. E certezas nunca foram possíveis de você. Só o desamor que colocava na mesa, junto com o café da manhã. Isso quando não acordava tarde e vinha se queixando sobre o sono tardio. Não atrapalhava a TV, mas acabava com meu juízo. Não queria começar tudo mais uma vez. Nem os diálogos ensaiados, nem os livros repostos na estante, como se nada tivesse acontecido. Meu amor só se vive uma vez. A vida não aposta no mesmo sonho para sempre.

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Estampas De Rua

pára-choque pára a tempo:
não pára a vida, pára a via.
automóveis à velocidade da luz
não se movem na idéia que reduz
à própria velocidade a que faz jus.
tanto desapego no trânsito
transitório que transita na contra-mão.
ainda ouve-se o grito: não!
era noite ainda, quase dia
quando os gestos num exílio de contento
encaminharam-se para a partida,
levados pelo vento...

domingo, 12 de agosto de 2007

A Chuva Cai No Pára-Brisa Do Carro Quando Estamos Longe de Casa

Bang, bang. Foi assim, com um impacto duro e seco. Eu olhei pelo retrovisor e de repente a porta se abriu. Com a maquiagem borrada ela sempre foi mais interessante. Ficamos em silêncio alguns minutos, antes de sair pelas ruas escutando os ruídos da madrugada, vendo a Lua feita-de-papel estampada no céu, num abuso insolente. Enquanto isso ela examinava as unhas, nervosa demais para pensar. O que se passava em sua tumultuada alma? Passional do seu jeito, me pediu para estacionar em qualquer lugar, e caminharmos um pouco. O que eu peço é só um pouco do seu calor pra mim, ela sussurrou quando já estávamos mais próximos, confidentes provisórios de nossas fraquezas expostas. Engraçado como a bebida faz você caminhar com passos calculados, comentei meio sorrindo. Foi o bastante para ela chorar baixinho com os braços me apertando o corpo, com medo talvez de simplesmente desaparecer sem deixar rastro. Com medo de virar poeira cósmica, perdida entre as estrelas. Sem ninguém que a ouvisse, sem promessas para cumprir.

sábado, 11 de agosto de 2007

Coisas Acontecem [Sumire No Céu Com Diamantes]

"De modo que é assim que vivemos nossas vidas. Não importa quão profunda e fatal seja a perda, o quão importante fosse o que nos roubaram - que foi arrebatado de nossas mãos -, mesmo que mudemos completamente, com somente a camada externa da pele igual à de antes, continuamos a representar as nossas vidas dessa maneira, em silêncio. aproximando-nos cada vez mais do fim da dimensão do tempo que nos foi estipulado, dando-lhe adeus enquanto vai minguando. Repetindo, quase sempre habilmente, as proezas sem fim do dia-a-dia. Deixando para trás uma sensação de vazio imensurável."
Haruki Murakami

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

We've Seen The Damage Of Gossip And True Lies - Parte 2

A realidade está cheia de sinais. Como seria se corrêssemos um pouco de perigo de vez em quando? Expostos ao perigo, ao jogo. Se sangrássemos, quem viria para nos salvar? Ou ficaríamos contorcidos de dor em um canto escuro, até a noite surgir, em meio a alucinações de câncer lunar? Hipnotizados pela medo. Como seria se o abismo estivesse mais próximo. Como rejeitaríamos nossas condições para tentar ver o outro lado.

We've Seen The Damage Of Gossip And True Lies - Parte 1

Quem estaria pensando agora em você mais do que eu? Perdendo o sono... Mas não pela mesma causa: encontrei alguns desenhos animados que costumava assistir quando criança. No tempo em que ainda não existia para mim; era só um projeto no meu futuro. Não sabia que iria sentir saudade tão rápido. Acho que ninguém esteve tão perto de entender o que eu digo quanto você: um plano tão elegante como as roupas do Paul Banks.

quinta-feira, 9 de agosto de 2007

Como O Rio Moldau Na Primavera - Parte 2

Olhava para o céu opaco de agosto enquanto caminhava entre os carros. O mesmo percurso de antes, mas eu não me sentia igual. Olhava para os nomes estranhos que agora ocupavam as fachadas dos prédios velhos do centro e tentava encaixar o meu passado na retina, como se pudesse sobrepor a memória a tudo o que via. E assim a cidade foi perdendo o sentido, até se desfazer numa sombra formada de sua própria história. Os anos traçavam minha imaginação e mais longe eu fui, onde não existia objeto ou causa: o estigma dos desafortunados, arrastando-se pelas ruas. Não percebia o espaço que ocupava, anulado pela pressa com que desviavam-se de mim. Parecia que todas as vidas eram tão urgentes... Desesperadamente necessárias para esse universo compacto que tentei assimilar por algumas horas. Mas qual sentido havia nessa busca de um passado que se alterou quantas vezes eu o perscrutava? Não seria na velha loja de tecidos que permanecia inalterada, como uma relíquia dos tempos, entre duas praças, que encontraria minha verdade. Seria talvez longe daqui, em algum lugar onde eu ainda faça parte do processo. Algum lugar de lugar nenhum?

quarta-feira, 8 de agosto de 2007

Dylan For The Lovers

Quando assisti o filme Solaris (na versão protagonizada pelo Clooney), uma poesia, que era meio como um código secreto entre seu personagem e sua esposa, chamou minha atenção. Tratava-se de uma peça escrita por Dylan Thomas, entitulada "E A Morte Não Terá Controle". Foi a partir do filme que procurei ler e conhecer melhor a vida e os textos desse genial poeta galês, um dos meus preferidos na literatura inglesa. Abaixo apresento o poema, e recomendo a leitura de toda sua obra. Vale a pena.

E A MORTE NÃO TERÁ CONTROLE

E a morte não terá controle.
Nus, os homens mortos irão confundir-se
com o homem no vento e na lua do poente;
quando, descarnados e limpos, desaparecerem os ossos
hão de nos seus braços e pés brilhar as estrelas.
Mesmo que se tornem loucos permanecerá o espírito lúcido;
mesmo que sejam submersos pelo mar, eles hão de ressurgir;
mesmo que os amantes se percam, continuará o amor;
e a morte não terá controle.

E a morte não terá controle.
Aqueles que há muito repousam sobre as ondas do mar
não morrerão com a chegada do vento;
ainda que, na roda da tortura, comecem
os tendões a ceder, jamais se partirão;
entre as suas mãos será destruída a fé
e, como unicórnios, virá atravessá-los o sofrimento;
embora sejam divididos eles manterão a sua unidade;
e a morte não terá controle.

E a morte não terá controle.
Não hão de gritar mais as gaivotas aos seus ouvidos
nem as vagas romper tumultuosamente nas praias;
onde se abriu uma flor não poderá nenhuma flor
erguer a sua corola em direção à força das chuvas;
ainda que estejam mortas e loucas, hão de descer
como pregos as suas cabeças pelas margaridas;
é no sol que irrompem até que o sol se extinga,
e a morte não terá controle.

Dylan Thomas

terça-feira, 7 de agosto de 2007

Como O Rio Moldau Na Primavera - Parte 1

Li esse texto publicado no NY Times com uma certa ironia. Trabalha o mesmo tema que eu havia escrito num poema inédito, Horses To Andina, e em um conto chamado Primavera No Japão. Não é uma situação muito original, mas a maneira como foi apresentado por Jessie Sholl é que torna a história mais interessante: a relação entre duas amigas que se altera com o relacionamento de uma delas se desenrola com passagens por diferentes cidades do mundo de uma forma romanceada, trazendo todos os vícios literários para esse fim: inclusive parecer com Rosamunde Pilcher, felizmente em um enredo mais curto. Pessoas estão sempre vivendo aproximações e separações. Ou, como eu digo, vivendo os seus "divórcios". Não deixa de ser doloroso, mas sempre faz da oportunidade a chance de compreender que não devemos esperar muito das outras pessoas. "Todos estão mudando", Tom Chaplin canta. O ruim é quando não sentimos o mesmo.
"Uma amizade tão grande que sufoca
Jessie Sholl*
Começou como muitos outros romances: uma apresentação numa festa. Ela e eu escorregamos rapidamente para um papo gostoso, passando da mesa de comidas para o bar e para o sofá, sorrindo e gargalhando, as faíscas entre nós quase visíveis. Qualquer um podia perceber que estávamos nos apaixonando. Só havia um detalhe: nenhuma de nós era lésbica.Eu sempre fiquei fascinada pelas pessoas que me fazem rir. Desta vez, porém, não era tanto o fato de ela ser muito engraçada. Tinha algo a ver com nós duas juntas. Havia uma química -uma química que criou um ninho apertado à nossa volta e deixou todos os outros de fora. No final da noite, tínhamos incomodado quase todos os outros presentes. Foi o início de nosso caso de amor platônico. As duas na faixa dos 20 anos e relativamente novas em San Francisco, ela e eu logo entramos na fase do "nós". Telefonávamos para perguntar: "O que vamos fazer neste fim de semana?", e nunca: "O que você vai fazer?" Ela se tornou meu par permanente em festas e baladas, minha parceira substituta, e eu a dela.No Natal, quando as duas estávamos sem dinheiro para pegar um avião e visitar nossas famílias, comemoramos juntas, bebendo champanhe barata e comendo frango com curry que ela me ensinou a fazer. Ela me deu vestidos de brechó embrulhados em papel que ela mesma havia pintado, e eu lhe dei material de pintura para os intricados desenhos pontilistas que estava fazendo.Nosso caso de amor superou até minha mudança para Nova York para fazer faculdade, três anos depois de nos conhecermos. Nos visitávamos sempre que possível e nos telefonávamos constantemente; num Dia de Ação de Graças conversamos durante três ou quatro horas, as duas comendo sanduíches de peru. Em termos de homens, estávamos sempre procurando, mas na verdade não estávamos atrás de namorados. Procurávamos anedotas para trazer de volta ao ninho e oferecer uma à outra, como alimento: ele beija como um gatinho lambendo leite; a estante dele está cheia de novelas românticas; ele se recusa a tirar o chapéu de caubói até para transar.Pensando bem, é chocante que alguém quisesse sair conosco quando estávamos tão claramente envolvidas."Mais próximas que irmãs", costumávamos dizer. Durante cinco anos ela e eu estivemos como que apaixonadas, mais que melhores amigas. E então, de repente, acabou.Ela foi convidada para uma turnê com uma banda de rock na Europa e me perguntou se eu queria encontrá-la em Praga, cidade que tínhamos combinado de conhecer juntas anos antes, ao ver fotos da viagem de uma amiga. É claro que eu disse sim. Assisti a todas as apresentações, aplaudindo orgulhosamente minha amiga. Então, na terceira e última noite (eu partiria na manhã seguinte para Paris, onde tinha planos, e ela seguiria para a próxima etapa da turnê), sentei-me por acaso ao lado de um americano, e no intervalo começamos a conversar. Acontece que David morava em San Francisco, perto da rua onde eu tinha morado, e estava passando o verão em Praga.Perguntei se conhecia algum clube para dançar, e ele passou cinco minutos desenhando num guardanapo um mapa dos melhores lugares. Depois do show, minha amiga saiu dos camarins e eu convidei David para nos acompanhar, pensando que pelo menos assim não nos perderíamos na cidade.Infelizmente, nenhum clube estava aberto, então David nos levou ao Chapeau Rouge, um bar agitado, cheio de estrangeiros. Não havia pista de dança. Mas ela e eu abrimos espaço no meio do bar, usando toda a nossa capacidade de chocar, fazendo caras-e-bocas de modelos e sacudindo exageradamente o corpo, como nos clipes dos anos 80 que gostávamos de imitar.David, surpreendentemente, não pareceu envergonhado. Ele sorriu, riu e até ergueu o copo, nos brindando em checo: "Na zdravi".Pouco depois, quando ela saiu para tomar um ar, David me perguntou há quanto tempo nós duas estávamos juntas.Eu quase engasguei com a cerveja. "Oh, não, somos apenas amigas.""Espero não ter ofendido", ele disse. "Não, imagine", eu respondi, e nesse exato momento comecei a notar que David era bem bonito.E charmoso. Enquanto ela ficou lá fora conversando, David me falou sobre Praga. Conversamos sobre literatura e sobre os filmes de humor negro de que nós dois gostávamos; ele me fez rir. Nossas banquetas no bar lentamente se inclinaram uma para a outra.Minha amiga, exausta com a apresentação, disse que queria voltar para o hotel. Quando saímos do bar, eu disfarçadamente coloquei minha mão na de David e disse a ela que achava que ia ficar mais um pouco na rua.Horas depois, quando David e eu voltamos ao hotel para pegar minha mala -ele ia me acompanhar até a estação-, pensei que não queria contar a ela sobre nosso primeiro beijo; não queria reduzi-lo a mais uma fofoca engraçada. Pela primeira vez eu voltava de um encontro para nosso ninho de mãos vazias. O que ela iria pensar? Mas eu não precisava ter-me preocupado; ela mal acordou para se despedir.Quando meus planos em Paris não deram certo, voltei alegremente para Praga, onde David e eu passamos três dias escondidos em salões de chá onde se precisava puxar uma corda de seda para poder entrar, vagando pelo enorme castelo medieval e nos fartando de "goulash", com alguns goles de absinto como sobremesa.E tomamos uma decisão: como eu tinha terminado a escola e estava louca por uma mudança, voltaria para San Francisco, pelo menos até ele terminar a faculdade, quando faríamos novos planos. Seria perfeito. Eu ia morar na mesma cidade que meu novo namorado e minha melhor amiga.Agora pecebo como isso foi ingênuo. Mas acho que em certo nível eu já sabia na época, pois alguns dias depois de minha volta a San Francisco ela e eu chegamos a um entendimento mudo: era melhor eu não mencionar David. Mas algumas semanas depois, enquanto tomávamos café, deixei escapar: "Estou com saudades de David".Ela me olhou como se eu estivesse louca: "Mas você não esteve com ele hoje de manhã?" "Sim, mas...", eu comecei, então mudei de assunto.Não demorou para que David e eu fôssemos morar juntos. Certa noite, quando eu sabia que ele ia trabalhar até mais tarde, convidei minha amiga para jantar. Ela parecia abatida. Sugeri que fizesse mais testes, talvez uma nova fita demo com a voz mais trabalhada. Disse que podia lhe emprestar dinheiro para novas fotos. O macarrão que eu tinha preparado esfriou enquanto eu planejava a vida dela, ou o que eu achava que deveria ser.Antes de David, ela não teria se incomodado com meus conselhos; afinal, era o tipo de conversa animadora que sempre tínhamos. Mas é claro que dessa vez tudo havia mudado, e em vez de parecer uma grande amiga simpática e prestativa eu soava mandona e agressiva."Chega", ela disse finalmente. "Já entendi." O próximo encontro que tivemos foi em nosso restaurante de sushi preferido, e ela mencionou uma amiga que tinha começado a namorar um cara e desaparecera; muitas vezes tínhamos falado que detestávamos as mulheres que fazem isso. E então ela disse: "Foi o que você fez. Desapareceu". Pensei em tudo o que eu tinha feito para impedir que isso acontecesse, mas não havia como negar que uma parte de mim tinha desaparecido, a parte que estava apaixonada por David, que eu escondera porque sentia que ela não queria ouvir falar no assunto. Eu quisera muito compartilhar tudo isso com minha melhor amiga, mas sabia que não podia, então guardei para mim.De repente não agüentei mais: "Você tem idéia da pressão que está fazendo contra mim?"Ela fez uma pausa, revirando o sushi, e disse: "Não. Que pressão?""Eu nem posso mencionar o nome dele perto de você!" Ela riu. "Está brincando? Você só fala nele!"Nossa conversa seguiu vacilante depois disso -a certa altura eu disse que gostaria que ela ficasse feliz por mim, e ela recebeu como uma ofensa, mas não sabia explicar por quê. Foi assim: depois de anos encantadas com nossa amizade única, depois de anos usando nossa intimidade para manter os outros afastados, não podíamos nem falar com franqueza sobre o que realmente sentíamos. Não sabíamos como.Ao nos despedirmos lá fora, ela disse que foi bom termos aliviado a tensão. Eu concordei entusiasticamente, mas nossas palavras pareceram ocas, falsas, como algo que diríamos para um cara antes de correr para o apartamento da outra com uma nova anedota muito divertida na ponta da língua. Vinte e quatro horas depois, ela rompeu comigo. Sua voz estava trêmula no telefone quando me disse que não queria mais ser minha amiga. Embora eu devesse ter adivinhado, fiquei tão surpresa que não consegui sentir tristeza, nem raiva. Mal consegui perguntar por quê."Você espera demais de mim", ela disse como explicação. "Como se eu fosse da sua família." A implosão de um amor platônico não é menos devastadora do que a de um amor verdadeiro. Eu chorei, emagreci, não conseguia dormir. Meu coração, ou pelo menos uma área vizinha, doía. Eu sabia que aquilo sobre eu tratá-la como alguém da família era apenas uma desculpa. Afinal, não era isso o que sempre havíamos dito, que éramos mais próximas que irmãs?Afinal, foi proximidade demais. Tínhamos criado um ninho tão apertado, tão sufocante, que não havia espaço para mais ninguém; mal havia espaço para cada uma de nós respirar. É claro que um amor platônico não precisa ser assim, e com muitas amizades próximas não é. Mas no nosso caso foi.Uma coisa eu aprendi dos nossos tempos de colecionadoras de anedotas, e ela também: é melhor ir embora do que ser deixada para trás. Acho que foi por isso que ela agiu assim naquele momento. Porque sabia a simples verdade, mesmo que eu não soubesse, ou talvez ainda não conseguisse admitir para mim mesma: eu precisava fazer uma escolha. E já tinha feito.
*Jessie Sholl é escritora e vive em Nova York
Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves"

sábado, 4 de agosto de 2007

Bad Actors With Bad Habits

Os negativos estavam na estante, ao lado dos textos de Apollinaire. O cheiro de serragem por toda parte, e o silêncio absurdo da rua só serviu de pretexto para nossa fuga. O velho barco, encalhado na margem do rio, lembrava a estranheza do destino. Como fomos parar aqui, pensando nessas coisas...? Eu não sabia o que mais estava por vir. O amor começava pela nuca, com os dedos cavalgando a pressa. Fitava as águas rumando para o mar, e me continha. Se era para ser assim, que fosse um pouco diferente. A dez dias para encenação, você não recorda algumas falas. As mais circunstanciais. As outras, extensas, surgem até nos sonhos sombrios da manhã de vanguarda, quando, envenenado pelo ídolo de pedra, só pensei em dizer que não me importo com seu cabelo azul. Quem sabe uma carta febril, que prometo há tanto tempo, conserte um pouco o dia.

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

You'd Probably Laugh And Say That We Were Worlds Apart.

"As Leis de Família" - filme argentino muito interessante. Chamou minha atenção por algumas razões que o próprio diretor apresenta na entrevista cedida à Folha de S. Paulo, que segue abaixo:

"SILVANA ARANTES da Folha de S. Paulo
Os dois são advogados, mas vivem em mundos diferentes. Enquanto Perelman "pai" (Arturo Goetz) defende suas causas --abusando do charme e dos favores que fazem mover a burocrática máquina judiciária--, Perelman "filho" (Daniel Hendler) ensina direito com "d" maiúsculo na universidade.
A aproximação entre a teoria e a prática (ou entre as duas gerações dos Perelman) acontece depois que o "filho" torna-se pai também.
É quando "As Leis de Família", quinto longa do diretor argentino Daniel Burman, 33, que estréia hoje no Brasil, encontra sua questão central, que o cineasta descreve assim: "Em que nos transformamos quando nos tornamos pais? E o que fazemos com nossos próprios pais nesse momento?".
A indagação sobre a família não é nova na obra de Burman. Ela é o tema dos anteriores "Esperando o Messias" e "O Abraço Partido", que deu a Hendler o troféu Urso de Prata de melhor ator no Festival de Berlim.
"Não há muitos outros temas além da família, porque ela é um microcosmos onde estão representadas todas as razões do mundo", afirma Burman, em entrevista à Folha, por telefone, de Buenos Aires.
O diretor reconhece que sua obsessão cinematográfica pelas relações familiares pode ser associada a um cinema conservador, mas discorda dessa classificação para seus filmes.
"Se, um dia, as relações familiares tiveram a ver com uma arte conservadora, hoje, falar das relações familiares é algo totalmente alternativo e transgressor. Hoje em dia, casar-se, ter filhos, criá-los e tentar sobreviver numa vida em família é um ato heróico que cada vez menos gente tenta praticar."


Um refexo da vida que levamos ou da que fugimos?

quinta-feira, 2 de agosto de 2007

Forma

Neste lugar
amo longe
nas sombras do mangue
fogo em pleno ar
com graça
e fome
tuas mãos móveis como areia
formam concha e escondem
a libido sem nome.

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

3:34 pm

Todas as cidades são uma só. Já a vida não comporta limitações. Se somos cidades cada um, há ruas que não encontram saída. Fora da estética, o caos urbano tumultua o cérebro, nos faz perder a direção. Luzes contra o céu aumentam o tráfego no inconsciente, tornando as placas invisíveis aos olhos do coração. Dispersados na neblina, condensados na parada de ônibus. E vem... Como um choro entre os prédios, a sirene cortando a avenida insone; um despertar ruidoso nas pedras da calçada. Somos quem sorri para si mesmo, aquecendo a distância: cidades isoladas, incomunicáveis, reservadas nos seus problemas e desviando-se dos sinais noturnos de movimentação.

terça-feira, 31 de julho de 2007

See You In The End Of The World

O sangue de nossos pais
pelos pais de nossos pais
ganha coloração amarela
pelos dias que passaram.

Já se faz um sangue ralo,
sem densidade ou força:
resta numa pequena poça
entre seus pés.

O que farão seus filhos por você?
O que porão pela eternidade,
assustados e cientes da carne frágil
que cobrirá seus ossos então?

Quando a pele findar
e nossas vergonhas tornarem-se
casca dura de árvore,
eles perceberão:

A dor de nossas glórias
encobrindo a franqueza das derrotas
a que impusemos o orgulho,
guardado para a morte serena.

segunda-feira, 30 de julho de 2007

A Carioca - Parte 2

A pior parte é quando parecemos crianças assustadas. Lia sobre o niilismo quando o telefone finalmente tocou. Minha ansiedade se entregava fácil nos gestos que ela não via; o sotaque carioca dela continuava estampado na voz, aquela coisa que o Sabino falou, de quem pede "doish cocosh", mas atenuado. Percebi que o jogo estava em suas mãos, e todos os filmes que comentou eram só distração para ouví-la mais. Eu ia dizer (como fiz) as bobagens que me passavam pela cabeça, e as novidades do dia eram surpresa para quem não entendia meu feedback. O disco novo do White Stripes? Oh, sim, estou ouvindo, para lembrar dos corvos que nunca mais me sairiam da imaginação como aves sinistras que Poe escreveu para atormentar sua caminhada nessa terra devastada. No cinema, a grama verde é na verdade sintética. Por isso eu odeio o lugar tanto quanto ela. Por toda a ilusão que nos distancia das pessoas tão fechadas em si, tão caretas... E que não conhecem, de verdade, a carioca que sonha em rever o sol dos trópicos.

sexta-feira, 27 de julho de 2007

A Carioca - Parte 1

Estou há dias sem dormir. Não lembro bem quando descobri que uma velha conhecida está morando em São Paulo, estudando moda. Engraçado, ela falava em cortar os pulsos se ele não chegasse cedo assim, depois da tarde. E ele está agora com aquela garota de nariz torto que se acha o máximo, mesmo tendo perdido seus discos do Belle & Sebastian. Outra noite ri desse jeito que ela dá nos olhos, meio reparando em quem não está por perto. Os carros passavam num silêncio absurdo. Era de pensar, hey, cadê a pressa de vocês? A pressa de passar pela vida.

quinta-feira, 26 de julho de 2007

Mixtape

Casal estéreo
ouço eu te amo em 2 canais
e na faixa quinze, instrumental,
faço um arranjo com o amor
[de sala-e-copa
e os versos queimam em acordes
[etéreos.

quarta-feira, 25 de julho de 2007

She Took My Soul

Ela tinha os olhos fundos
cavados pela insônia
e um jeito de ser
tão igual
a nada no mundo
o espírito estendido no sofá
a cortesia dos lábios
a forma de calor
que ela entendia
as mãos
ágeis
absorvidas no amor
como uma cura
para sua dispersão
tudo o que ela
quis encontrar
dentro de si
partia trancado numa jaula
contra a noite
consumida pelos excessos.

terça-feira, 24 de julho de 2007

Our Bloody King

Nunca pude guardar essa dor
[numa caixa.
Ásia distante da terra
me desperta com uma tristeza
[profunda
e sem nome
a separar grãos do pastoral vazio.
E ri; como ri da minha ventura
com a graça que nunca tive
[na infância
inventada dentro de mim.
Não via o tempo de inverter
papéis neste teatro de trapos velhos
em que se conquistou quase nada.
Com a minha monta
quero apenas partir contra a luz
margeando leitos secos
separado da matança da voz.

segunda-feira, 23 de julho de 2007

Limited Edition

Nada mais cool que eu, cansado de mim e de meu inverso amassado como roupa lavada na máquina, decida ir para o catálogo. Um dia, a garota que acabou de se mudar para o bairro e acha tudo muito estranho, vai me descobrir na seção indie rock oitentista: entre os primeiros discos do R.E.M. e uma edição usada do Loveless com um autógrafo borrado do Kevin. Uh, legal, ela dirá, e me levará para sua coleção de músicas-para-momentos-esquecidos. No quarto, um bilhete colado no espelho marca as horas da quarta-feira passada. O silêncio, e a pilha de livros é vasculhada. Jacob's room, página 93. Há semanas não consegue avançar uma linha. Quando na mudança, seu namorado perguntou: quer ser mulher de um artista? Não entende como isso mexe tão fundo nela. Durante a noite, ela pensa e revê respostas. O absurdo do absurdo é o normal de cada dia. Notas polifônicas e letras nonsense; ela faz parte do processo de alguma forma.
Tarde de ontem colocou o disco para escutar pela primeira vez. A introdução avançava parecendo ensaio; a bateria descompassada e a voz grave que lento rugia
make it new
make me feel
the love you make
make it now
a tear won't make you fake
os versos iam cobrindo as paredes de azul a garota de azul e assim seus livros e cadernos e discos espalhados pelo chão. Ela fingia sorrir ou fingia viver um pouco mais sem sentir a superfície asfixiando o paraíso e as palavras soltas na atmosfera. Seus olhos pediam um lugar sem contestação, e já que avançavam pelos cantos farejando o dia e a decisão, ela os repousou na faixa um lado um que repetia repetia repetia contornando com intermináveis desvios a cidade que imaginava haver entre nós. Eu fluía na linha de baixo e na intempestividade da guitarra anotada nos manuais. Eu era deus, era o nada, a inflexão no tempo. E ela era minha.

domingo, 22 de julho de 2007

Caos

Tudo se resolveria naquela tarde, ou ao menos eu pensava isso. Mas Clara não estava em casa, adiando um futuro inevitável. As nuvens tomando o horizonte de assalto eram perfuradas pelos raios de sol, que teimava em insurgir-se, embora com ares de complacência, repartindo o céu com tonalidades mais difusas. As nuvens eram, naquele momento, um reflexo da minha frustração.
Mas o meu caso era ainda pior: não havia quem cedesse a meu favor. Caminhava observando esse espetáculo silencioso sobre minha cabeça e pensava no quanto estaria certo sobre isso. Rostos passavam por mim sem assumir traços singulares: todos formavam uma massa vulgar que exalava descrença e piedade, despertando um aborrecimento cada vez maior. Vislumbrava como seria atrativo se pudéssemos parar o tempo e trazer à tona as alegrias da infância há muito enterradas. No entanto, quando minhas abstrações iam mais fundo no espírito inquieto, voltei à realidade por um chamado exterior. Era o Vieira.

“Onde você estava, afinal?”
“Pensando em minha próxima peça.”
“Escute, temos um problema muito sério para resolver.”
“Talvez perderemos o patrocínio para o evento da semana que vem.”
“Como sabe?”
“O Prado me ligou ontem, estava muito embaraçado.”
“O que pensa em fazer?”

Na verdade, não pensava nisso. Não me importava mais se poderia ou não continuar com as montagens itinerantes pelo centro da cidade. As pessoas não paravam para assistir, mesmo; apenas mendigos se aproximavam e, assustados com minha arte experimental, desistiam do primeiro contato e logo se afastavam. Prado agüentou o quanto pôde; não o culpo pelo que aconteceu.
Para um dramaturgo, é essencial que questões existenciais habitem seu corpo, porém, para uma pessoa comum, é ainda mais imperativo que se livre delas em troca de uma vida possível. O teatro sustenta-se nessa dualidade e aquele que se propõe a fazê-lo deve levá-la ao extremo, colocando o público em contato com sua própria natureza. Agora percebo que não estava preparado para isso. Apenas uma parte de minha frustração.
A noite pesada se alastrava rapidamente enquanto as luzes das casas a recebiam de forma discreta. Apressei os passos, tentando reverter os contratempos imaginados. Em minutos alcancei a avenida que levava ao trabalho de Clara. Pela vitrine avistei-a de costas. Seu cabelo ganhava novos tons através da distorção do vidro, deixando-o mais bonito. Pensei em esperá-la sair, mas acabei seguindo meu coração, que batia num desespero mudo, alertando meus sentidos para o perigo improvável. Tudo era contraste, repulsivo e violento, sem pudor. Um caos absurdo instalado em minha mente.

sábado, 21 de julho de 2007

Sobre Ana

Pensei no suicídio de Ana como um adeus mal-humorado, igual aos que ela me dava antes de sair às quintas-feiras. A sua boca contraída era uma insensatez que varria minhas expectativas para o alto: não sabia se adivinhava os pés inquietos debaixo da mesa nos dias de repouso ou seus olhos oblíquos que se fechavam durante o beijo. E na última vez que fomos para a casa de praia, Ana permaneceu atenta ao ritmo das ondas, em harmonia com o rumo dos ventos. Em silêncio acompanhei sua viagem sem passos dados: apenas o sol parecia movimentar-se por nós. Foi um anúncio ignorado, que hoje ofende minha astúcia. Nunca vivi uma solidão tão presente. Tinha tanta pressa nas coisas que fazia, parecendo não querer a vida presa a um só destino; enquanto meu tempo não era tão útil, seus dias foram cheios de graça e cor. Lembro de Ana dançando na sala, descalça, um sorriso cintilante que iluminava a cidade. Dos seus momentos de leituras, imprescindíveis depois do almoço. Em segredo, Ana escrevia um poema todas as tardes, sempre falando de um amor eterno e sereno que, desprezado pelos homens, morria e renascia até que, cansado, virava pó.

Filmes Na Noite Escura

Passo as madrugadas assistindo filme. Na solidão, percebo que meu silêncio sempre foi maior que o seu. É possível sentir isso. Tal como a dor inventada que na tela me parece bem familiar. Estive em tantos lugares, conheci muitas pessoas; soube de vidas que não conseguiria suportar. Por duas horas, este mundo é meu, ainda que me escape quando em vez, ao desviar minha atenção: todas as coisas estão no lugar, afinal; a existência é inexorável para o que permanece lá fora. Eu imagino sem jeito como seria o dia ao amanhecer diferente. Mas me sinto preso, limitado pelo o que a estória apresenta. Sem sujeitos vingativos ou garotas francesas confidentes: só as armas na mesa, descarregadas, voltadas para a noite. A voz estranha me lembra um retângulo; os objetos em cena eu os possuí de alguma forma, e assim vou reconstruindo minha memória, com pessoas e coisas que nunca estiveram nela. Como eu, provavelmente.

sexta-feira, 20 de julho de 2007

Speech: Take 2

Rafael - [The love you make] diz:
o conhecimento gera dor e incompreensão
cum diz:
mas você estaria vivendo na escuridão.. seria um cego..
Rafael - [The love you make] diz:
quanto mais se sabe, menos se entende o que nos cerca
cum diz:
mas através do conhecimento você aprende a lidar com a dor
cum diz:
saca? ;D
Rafael - [The love you make] diz:
nop
Rafael - [The love you make] diz:
eu discordo
cum diz:
acho que eu sou masoquista
Rafael - [The love you make] diz:
ou eu é que falo por meio de minhas experiências
Rafael - [The love you make] diz:
a vida não é igual para todos
cum diz:
vero.. mas não gostaria de viver na ignorância.. =/
cum diz:
sou mais um sofrimento sincero do que um uma alegria fingida
Rafael - [The love you make] diz:
a alegria pode ser sincera quando não sabemos o que há por trás dela. não é uma questão de relevar os fatos.
cum diz:
ai ai
cum diz:
a gente tah viajando
Rafael - [The love you make] diz:
nada
Rafael - [The love you make] diz:
a gente está "debatendo idéias"
cum diz:
vero
cum diz:
vou rebater seu argumento ;D
cum diz:
a 'mentira' não é verdade por nós acreditarmos que ela é verdadeira..
cum diz:
isso seria egocentrismo
cum diz:
sacA?
Rafael - [The love you make] diz:
eu prefiro pensar mais como um instinto de sobrevivência
cum diz:
ahn
cum diz:
como assiiiiiiiiiiiiiim?
Rafael - [The love you make] diz:
você pensa em si para poder escapar dessa
cum diz:
mas você pensando em você estaria mentindo pra si mesmo.. pq ao fazer isso, você estaria sabendo que está vivendo na ignorância
cum diz:
você estaria sofrendo.. tendo um pouco de conhecimento.. sem saber o que fazer..
cum diz:
se tah no inferno, abraça o capeta \o
Rafael - [The love you make] diz:
até quando podemos suportar esse tipo de situação? a conveniência tem um limite. e como lidar com essa consciência de fracasso e/ou perda?
cum diz:
pois é..
cum diz:
acho que seria o caso de pensar que nada é imutável..
cum diz:
tudo está sujeito a transformações..
Rafael - [The love you make] diz:
então.
Rafael - [The love you make] diz:
você não pode estigmatizar o conhecimento como algo louvável em todos os aspectos.
Rafael - [The love you make] diz:
é oportuno pensar como certas coisas precisam ser deixadas para trás de alguma forma.
Rafael - [The love you make] diz:
sem que tenha sido "processada" por nós
cum diz:
mas eu acredito quê quando se tem consciência da 'mutação' em que nossas vidas se encontram é mais fácil processar a perda.. é isso.. você ter noção que nada vai permanecer igual o resto da vida
Rafael - [The love you make] diz:
eu entendo... mas nem sempre a razão segue regras compreensíveis por nós.
cum diz:
mas quem controla a razão somos nós, diferente dos sentimentos.. apesar, destes na minha opinião serem 'rebeldes sem causa'. enquanto a razão tenta 'dominá-los' e em boa parte do tempo, consegue
Rafael - [The love you make] diz:
será?
cum diz:
eu acredito..
Rafael - [The love you make] diz:
controlamos a razão ou nos deixamos acreditar por isso?
cum diz:
hmmm..
cum diz:
controlamos a razão..
cum diz:
pq se fosse o contrário, 'quem' seria ela?
cum diz:
quem teria preestabelecido a 'razão'?
cum diz:
sei lá
cum diz:
meio estranho
Rafael - [The love you make] diz:
quem teria preestabelecido a 'razão'? oras, o estado de ordem que o ser humano tem dentro de si desde os primórdios, como prova a filosofia grega, para que a existência seja palpável e tolerável.
cum diz:
ai ai ai
cum diz:
e que estado de ordem seria esse?
Rafael - [The love you make] diz:
questões pré-estabelecidas, cabíveis em nosso estado de evolução quanto à lidar com o mundo, com nós mesmos.
cum diz:
hmmmm
cum diz:
ai que entra aquele lance de comer gente é errado???
cum diz:
rsrsrs
Rafael - [The love you make] diz:
sim.
cum diz:aaaaahh

quinta-feira, 19 de julho de 2007

Speech: Take 1

Rafael - [As pessoas só conseguem, quando muito, enxergar a si mesmas] diz:
sim, e a photo? não volta atrás, não?
Mariane diz:
eu preciso recuperar a paixão pela minha imagem antes heheh
Rafael - [As pessoas só conseguem, quando muito, enxergar a si mesmas] diz:
seu egocentrismo está de férias, então.
Rafael - [As pessoas só conseguem, quando muito, enxergar a si mesmas] diz:
sabe quando você está triste e um disco acaba salvando sua vida?
Rafael - [As pessoas só conseguem, quando muito, enxergar a si mesmas] diz:
pois é.
Rafael - [As pessoas só conseguem, quando muito, enxergar a si mesmas] diz:
abençoado seja o rock 'n' roll.
Mariane diz:
sei como é
Rafael - [As pessoas só conseguem, quando muito, enxergar a si mesmas] diz:
me sinto uma pessoa iluminada por gostar disso
Mariane diz:
nao é todo mundo que tem essa capacidade de absorver a música
Rafael - [As pessoas só conseguem, quando muito, enxergar a si mesmas] diz:
tantas almas perdidas, que se venderam pro diabo com o axé, forró e coisas piores.
Mariane diz:
eh...
Rafael - [As pessoas só conseguem, quando muito, enxergar a si mesmas] diz:
e eu aqui, com o OK Computer debaixo do braço e um estado de espírito mais elevado.
Mariane diz:
o Ok computer me deprime um pouco
Rafael - [As pessoas só conseguem, quando muito, enxergar a si mesmas] diz:
mas quando você está deprimido, sente como se alguém imaginário o entendesse e acaba se sentindo melhor.