Hoje eu postaria um texto de minha autoria. Mas li duas colunas belamente escritas na Folha de S. Paulo, tratando de assuntos relevantes para mim, que merecem destaque: um de ordem cultural e o outro de natureza pessoal. Muito já questionei e divergi sobre o papel das telenovelas, ainda mais diante de alternativas oportunas para um esclarecimento maior do intelecto e do senso crítico de cada um. A segunda coluna... Bem, fala por si. O curso maldito que acabei escolhando para mim, o Direito. A profissão encalhada nos abismos burocráticos mais insanos possíveis, mas que cobram pra si todas as prerrogativas ontológicas, debochadas em doutrinas rasas que vergam a profundidade dialética digna de um palhaço levado à sério.
Aqui vai o primeiro ensaio, escrito por Sérgio Malbergier.
A nova novela é velha
Escrevi aos 16 anos meu primeiro texto para a mídia impressa. Era uma carta endereçada à "Veja" reclamando de uma edição de agosto de 1981 que trazia Regina Duarte na capa. Xingava a revista porque, naquela semana, meu ídolo Glauber Rocha tinha morrido. Como a maior revista do país não percebia que a morte de Glauber era muito maior que qualquer personagem de Regina?
A carta não foi publicada, e penso que a revista faria a mesma opção de capa hoje, por motivos razoáveis.
A longevidade e a centralidade das telenovelas é impressionante. Desde o "Direito de Nascer", em 1964, elas dominam e moldam nossa indústria do entretenimento. O gênero não nasceu no Brasil. No começo, importávamos e adaptávamos textos mexicanos e argentinos, que eram redigidos não por autores contratados pelas emissoras, mas em agências de publicidade tuteladas por patrocinadores como Gessy Lever e Colgate-Palmolive.
Em poucos anos as telenovelas já lideravam a audiência no país, e nossos autores e homens de TV deram o pulo do gato: abrasileiraram os dramalhões latinos, introduzindo nossa peculiar realidade social.
A estrutura dos folhetins, porém, continua igual, com os mesmos enredos e tramas, fincados nos romances do distante século 19, envolvendo paternidades trocadas, cinderelas ascendentes, vigaristas cínicos, heroínas ingênuas.
Mas a esse rígido receituário foram sendo acrescentados o espírito da época, a história do ano, alguns dos grandes temas da agenda nacional. O esmero na arte telenovelesca, que tornou o Brasil o maior exportador mundial do produto, garantiu seu reinado absoluto na cultura popular do país. E já se passaram quatro longas décadas.
É um paradoxo. Autores como Janete Clair e Dias Gomes e atores como Lima Duarte e Tony Ramos consolidaram uma dramaturgia nacional, mesmo que pobre, e levaram a telenovela a registros de alta qualidade dentro do gênero, seu estado da arte. Mas sua dominação sobre nossa produção cultural, principalmente a audiovisual, nos empobrece.
A novela é antes de tudo um produto comercial, como, digamos, uma pasta de dente. Ela tem de dar lucro, muito lucro. É sua prioridade única, o resto é enfeite.
A TV Globo orbita em torno do drama das oito. Se a novela vai bem, a emissora vai bem. E, ao contrário das sitcoms semanais que dominam a audiência nos EUA, a telenovela é diária. Enquanto CBS, NBC e ABC têm cinco seriados por semana para cativar o público americano e, com ele, os anunciantes, a Globo só tem um tiro, a novela das oito. Ele tem de ser certeiro, e para isso vale tudo, com pressão enorme sobre seus autores e diretores, boa parte enfartada.
Não há como fazer a novela girar em torno de prioridades artísticas, apesar da enorme boa vontade de alguns críticos culturais. Ela sai a toque de caixa. Assim, na média, a luz vem chapada, o texto, sofrível, o desempenho dos atores, risível. Não pode ser diferente. As condições de produção impõem a mensagem.
Numa brava e histórica entrevista à Ilustrada, em março de 2006, Lima Duarte desabafou:
"É duro fazer novela. Está cada vez mais cansativo. Estão escrevendo a mesma história há 40 anos. Faço o mesmo personagem, e o público chora a mesma lágrima, no mesmo horário. Mas o povo não deixa mudar".
Quando pensei em escrever sobre a recente troca de bastão na novela das oito, de "Paraíso Tropical" para "Duas Caras", meu espírito era limaduartiano, de revolta contra os telenovelixos e sua intrínseca precariedade.
Mas alguma leitura e uma amiga, Heloisa Pait, Ph.D. pela New School de Nova York e professora da Unesp, me apontaram méritos inegáveis das telenovelas brasileiras, como a transmissão de alguma cultura aos menos educados e de um sentimento de coletivo aos telecidadãos com menos oportunidades de instrução e inserção. A eles a novela pode acrescentar.
Mas é constrangedor ver essa multidão de diplomados e bem instruídos, incluindo os que lêem este texto, mamar também nas tetas bregas de Gilberto Braga e cia, gastarem uma hora por dia, seis horas por semana, mais de 300 horas por ano com as peripécias de Bebel e Antenor.
A boa notícia é que a audiência da novela das oito declina, enquanto explode a penetração de computadores (e, com eles, da internet) nos lares brasileiros. Daí virá a revolução, que não será televisionada.
A telenovela não deve ser tudo isso no Brasil. O país precisa ser maior que elas, tirá-las do horário dito nobre. Desligue sua TV hoje na hora da novela e faça qualquer outra coisa.
Vai ser melhor para você.
Um comentário:
Eh isso ai! Vou quebrar a TV aqui de casa pra ninguem mais ver novela! :D
Muito massa isso.
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