segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Eu/Relativo Público

Estava fazendo uma pesquisa na internet sobre a adaptação cinematográfica de O Amor Nos Tempos Do Cólera quando deparei-me com um comentário bastante intimista acerca da obra original de Márquez. Tal o autor da referida matéria, também acredito em uma produção menor frente ao caso de amor que atravessa anos e que nos é contado de forma expressa, como a chamarmos para nossas próprias paixões à espera. Fiquei bastante impressionado quando devorei o livro, à época em que vivia de maneira mais intensa minha admiração pela produção de Gabo. Assim como um dia estive envolvido com Borges, o mestre. Borges, aliás, que me reapareceu em um poema de sua autoria traduzido por Millôr, e que me foi passado por um amigo. Aqui o reproduzo. Sublime.



LIMITES

De todas as ruas que escurecem ao pôr-do-sol,
deve haver uma (qual, eu não sei dizer)
em que já passei pela última vez
sem perceber, refém daquele Alguém

que, com antecedência, fixa leis onipotentes,
ajusta uma balança secreta e inflexível
para todas as sombras, formas e sonhos
tecidos na textura desta vida.

Se há um limite para todas as coisas e uma medida
e uma última vez, e nada mais, e esquecimento,
quem nos dirá a quem nesta casa
nós, sem saber, já dissemos adeus?

Pela janela que amanhece a noite se retira
e entre os livros empilhados que lançam
sombras irregulares na mesa baça,
deve haver um que eu jamais lerei.

Há uma porta que você fechou pra sempre
e algum espelho o esperará em vão;
para você as encruzilhadas parecem muito amplas,
mas há um Janus, vigiando você, nos quatro cantos.

Há uma entre todas tuas memórias
que agora está perdida além da evocação.
Você não será visto descendo àquela fonte,
seja à luz do sol claro, nem sob a lua amarela.

Você nunca recapturará o que o Persa
disse em seu idioma tecido com pássaros e rosas,
quando, ao pôr-do-sol, antes que a luz disperse,
você quer pôr em palavras tanto inesquecível.

E o Rhone fluindo sem parar, e o lago,
todo esse vasto ontem sobre o qual me curvo hoje?
Estará tudo tão perdido como Cartago,
queimada pelos romanos com fogo e sal.


Jorge Luis Borges

Um comentário:

Bequi disse...

Bonito o poema. (;