domingo, 22 de julho de 2007

Caos

Tudo se resolveria naquela tarde, ou ao menos eu pensava isso. Mas Clara não estava em casa, adiando um futuro inevitável. As nuvens tomando o horizonte de assalto eram perfuradas pelos raios de sol, que teimava em insurgir-se, embora com ares de complacência, repartindo o céu com tonalidades mais difusas. As nuvens eram, naquele momento, um reflexo da minha frustração.
Mas o meu caso era ainda pior: não havia quem cedesse a meu favor. Caminhava observando esse espetáculo silencioso sobre minha cabeça e pensava no quanto estaria certo sobre isso. Rostos passavam por mim sem assumir traços singulares: todos formavam uma massa vulgar que exalava descrença e piedade, despertando um aborrecimento cada vez maior. Vislumbrava como seria atrativo se pudéssemos parar o tempo e trazer à tona as alegrias da infância há muito enterradas. No entanto, quando minhas abstrações iam mais fundo no espírito inquieto, voltei à realidade por um chamado exterior. Era o Vieira.

“Onde você estava, afinal?”
“Pensando em minha próxima peça.”
“Escute, temos um problema muito sério para resolver.”
“Talvez perderemos o patrocínio para o evento da semana que vem.”
“Como sabe?”
“O Prado me ligou ontem, estava muito embaraçado.”
“O que pensa em fazer?”

Na verdade, não pensava nisso. Não me importava mais se poderia ou não continuar com as montagens itinerantes pelo centro da cidade. As pessoas não paravam para assistir, mesmo; apenas mendigos se aproximavam e, assustados com minha arte experimental, desistiam do primeiro contato e logo se afastavam. Prado agüentou o quanto pôde; não o culpo pelo que aconteceu.
Para um dramaturgo, é essencial que questões existenciais habitem seu corpo, porém, para uma pessoa comum, é ainda mais imperativo que se livre delas em troca de uma vida possível. O teatro sustenta-se nessa dualidade e aquele que se propõe a fazê-lo deve levá-la ao extremo, colocando o público em contato com sua própria natureza. Agora percebo que não estava preparado para isso. Apenas uma parte de minha frustração.
A noite pesada se alastrava rapidamente enquanto as luzes das casas a recebiam de forma discreta. Apressei os passos, tentando reverter os contratempos imaginados. Em minutos alcancei a avenida que levava ao trabalho de Clara. Pela vitrine avistei-a de costas. Seu cabelo ganhava novos tons através da distorção do vidro, deixando-o mais bonito. Pensei em esperá-la sair, mas acabei seguindo meu coração, que batia num desespero mudo, alertando meus sentidos para o perigo improvável. Tudo era contraste, repulsivo e violento, sem pudor. Um caos absurdo instalado em minha mente.

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