segunda-feira, 23 de julho de 2007

Limited Edition

Nada mais cool que eu, cansado de mim e de meu inverso amassado como roupa lavada na máquina, decida ir para o catálogo. Um dia, a garota que acabou de se mudar para o bairro e acha tudo muito estranho, vai me descobrir na seção indie rock oitentista: entre os primeiros discos do R.E.M. e uma edição usada do Loveless com um autógrafo borrado do Kevin. Uh, legal, ela dirá, e me levará para sua coleção de músicas-para-momentos-esquecidos. No quarto, um bilhete colado no espelho marca as horas da quarta-feira passada. O silêncio, e a pilha de livros é vasculhada. Jacob's room, página 93. Há semanas não consegue avançar uma linha. Quando na mudança, seu namorado perguntou: quer ser mulher de um artista? Não entende como isso mexe tão fundo nela. Durante a noite, ela pensa e revê respostas. O absurdo do absurdo é o normal de cada dia. Notas polifônicas e letras nonsense; ela faz parte do processo de alguma forma.
Tarde de ontem colocou o disco para escutar pela primeira vez. A introdução avançava parecendo ensaio; a bateria descompassada e a voz grave que lento rugia
make it new
make me feel
the love you make
make it now
a tear won't make you fake
os versos iam cobrindo as paredes de azul a garota de azul e assim seus livros e cadernos e discos espalhados pelo chão. Ela fingia sorrir ou fingia viver um pouco mais sem sentir a superfície asfixiando o paraíso e as palavras soltas na atmosfera. Seus olhos pediam um lugar sem contestação, e já que avançavam pelos cantos farejando o dia e a decisão, ela os repousou na faixa um lado um que repetia repetia repetia contornando com intermináveis desvios a cidade que imaginava haver entre nós. Eu fluía na linha de baixo e na intempestividade da guitarra anotada nos manuais. Eu era deus, era o nada, a inflexão no tempo. E ela era minha.

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