sábado, 21 de julho de 2007

Sobre Ana

Pensei no suicídio de Ana como um adeus mal-humorado, igual aos que ela me dava antes de sair às quintas-feiras. A sua boca contraída era uma insensatez que varria minhas expectativas para o alto: não sabia se adivinhava os pés inquietos debaixo da mesa nos dias de repouso ou seus olhos oblíquos que se fechavam durante o beijo. E na última vez que fomos para a casa de praia, Ana permaneceu atenta ao ritmo das ondas, em harmonia com o rumo dos ventos. Em silêncio acompanhei sua viagem sem passos dados: apenas o sol parecia movimentar-se por nós. Foi um anúncio ignorado, que hoje ofende minha astúcia. Nunca vivi uma solidão tão presente. Tinha tanta pressa nas coisas que fazia, parecendo não querer a vida presa a um só destino; enquanto meu tempo não era tão útil, seus dias foram cheios de graça e cor. Lembro de Ana dançando na sala, descalça, um sorriso cintilante que iluminava a cidade. Dos seus momentos de leituras, imprescindíveis depois do almoço. Em segredo, Ana escrevia um poema todas as tardes, sempre falando de um amor eterno e sereno que, desprezado pelos homens, morria e renascia até que, cansado, virava pó.

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