Era o ano de 1969, e fazia um calor horrível lá fora. Ela escutara os seus discos dos Beatles enquanto anotava a conversa que tivera com o pai no diário. Agora, deitada na cama esperando o jantar, pensava na morte e isso lhe bastava. Muitas fantasias se formavam, sem aparência, e emparelhavam num desfile negro diante de seus olhos. Às cores chegavam o canto da janela mal iluminado pelos riscos de sol que penetravam a folhagem da árvore próxima à casa. Não saberia conceber detalhes de sua vigília macabra, mas resistia aos pontos cinzas que se tornavam negros e densos, permanentes. O caráter divergente nõa lhe interessava propriamente; queria apenas manter o controle, por menor que fosse. Pois não contava com o avanço das horas, e até que todas as luzes da casa estivessem acesas, bem como o poste defronte, não aquietou-se com o falatório de seus pequenos fantasmas, que vieram a esconder-se em sua mente afastada dos mistérios da fé. Propôs diálogos retóricos, mas eles se manifestavam através de ruídos falsos que pouco a pouco lhe ensurdeceram os ouvidos. Por isso, não escutando o chamado insistente da mãe para o jantar, permaneceu deitada, na execução de sua sinfonia cerebral.
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